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06/11/2009

 
Cortiço, O
     
   
  Editora: Ática 80 paginas
   
   
  Preço: R$ 22,90 Formato: 19 x 26 cm
 
 
 
 
     

 

   
 

Data do Review:  06/11/2009

Por:  Adilson Thieghi    

Roteiro: Ivan Jaf
Arte: Rodrigo Rosa

O Cortiço é a mais uma edição da coleção Clássicos Brasileiros em HQ da Editora Ática . A série traz adaptações em quadrinhos de grandes obras de autores consagrados da literatura brasileira, neste caso, Aluísio Azevedo.

Opinião:

Aluisio de Azevedo, como bom escritor naturalista que era, portava-se como um cientista. Seu objetivo era analisar e entender o comportamento de seres humanos a partir do contexto social. Sua conclusão e testamento está basicamente em três livros, O Mulato (marco inaugural da escola naturalista no Brasil), Casa de Pensão e em O Cortiço, romance de 1890 que conta a vida de diversos moradores de um “viveiro de lavas sensuais em que irmãos dormem misturados com as irmãs na mesma lama;paraíso de vermes;brejo de lodo quente e fumegante,donde brota a vida brutalmente,como de uma podridão”. Nesta obra que agora ganha versão para os quadrinhos pelas mãos do roteirista Ivan Jaf e do desenhista Rodrigo Rosa, Azevedo demonstra que um ambiente degradado geraria pessoas moralmente degradadas e que o homem não é mais do que um animal incapaz de ceder a seus instintos.

Azevedo tratava sua escrita como uma ciência exata porque, naquele momento, toda ciência se acreditava exata. E se sua obra soa algo cruel e até preconceituosa hoje em dia, em seu tempo ela tinha um forte teor de denúncia, por não recorrer à religião e não maquiar a realidade, pelo contrário, esfregava na ara do leitor a vida dolorosa de pessoas ignoradas pela arte da época, mais preocupada em retratar as paixonites burguesas. Daí ele não economizar na violência ou no sexo para contar a ascensão social do mesquinho João Romão às custas da miséria dos moradores de seu cortiço.

É, portanto, uma tarefa e tanto levar uma obra assim aos quadrinhos e ainda mais direcioná-la a leitores jovens, idéia da série Clássicos em Quadrinhos da editora Ática, que já conta com versões de O Alienista e de O Guarani.

Se em O Guarani (também de Ivan Jaf, mas com desenhos de Luís Gê) a ênfase era na ação, a chave aqui é o humor; no primeiro caso havia um claro esvaziamento do sentido da obra original em detrimento de algo que não era próprio a ela, já neste O Cortiço, se há também certo esvaziamento, o traço caricato de Rosa, por outro lado se mostra mais adequado, afinal é próprio da caricatura expor o ridículo e o feio, exatamente a intenção da obra original, marcada por sua postura antiromântica (portanto sem idealizações de personagens)- aliás, o próprio Aluizio Azevedo iniciou sua carreira como caricaturista.

A opção pelo humor não é de maneira alguma um erro, afinal passagens engraçadas existem também no livro. Ocorre que a violência da descrição foi suavizada e as passagens mais cruéis, limadas, como o fim de Dona Isabel, que morre de desgosto por ver a filha Pombinha tornar-se prostituta homossexual ou o da portuguesa Piedade, que abandonada pelo marido, se entrega à bebida e passa a viver num quarto imundo. Seu comportamento de bêbada a coloca em situações constrangedoras, como quando se põe a dançar no meio de uma roda de samba, tentando parecer sensual como a mulher que roubara seu marido, mas acaba sendo apenas ridícula, “a boba da roda”. As pessoas riem e lhe dão “palmadas no traseiro e com o pé lhe embaraçavam-lhe as pernas, para ver cair e rebolar-se no chão”. É talvez pela suavização de situações assim que a última página, apesar de violentíssima, cínica (ainda que menos do que no livro) e impactante, pareça enxertada na HQ.

No Brasil, com exceção de Angeli, talvez só mesmo Marcatti pudesse dar conta de traduzir O Cortiço em toda sua grandeza e ainda com humor. O autor de Mariposa, com seu traço sujo e cômico, poderia fazer da deformação moral uma deformação física, fazendo a transposição palavra – imagem de maneira perfeita, afinal O Cortiço é o que se poderia chamar hoje, sem favor, de “underground” ou “punk”.

O resultado final não é ruim (como também não era O Guarani), longe disso. Mas poderia ser bem melhor.

Vale dizer que todas as edições da série trazem material extra que, além de dados históricos sobre o período do romance (que entregam que o público da adaptações é mesmo bastante jovem), trazem comparações preciosas do texto original com o roteiro e a página pronta.

 

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