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17/09/2009

 
Nova York - A Vida na Grande Cidade
     
   
  Editora: Cia das Letras 440 paginas
   
   
  Preço: R$ 55,00 Formato: 20,5 x 27 cm
 
 
 
 
     

 

   
 

Data do Review:  17/09/2009

Por:  Adilson Thieghi    

Roteiros e arte: Will Eisner

Um dos álbuns de estreia do selo Quadrinhos na Cia da editora Companhia das Letras. A obra reúne quatro graphic novels de Will Eisner: Pessoas Invisíveis, O Edifício, Caderno de Tipos Urbanos e Nova York: A Grande Cidade.

Opinião:

Invisibilidade (literal ou metaforicamente falando) é o conceito que liga os quatro trabalhos de Will Eisner produzidos entre 1981 e 92 e que estão reunidos neste "Nova York - A Vida na Grande Cidade", calhamaço de quase 500 páginas lançado pela Companhia das Letras e que reúne duas graphic novels, "O Edifício" e "Pessoas Invisíveis", e material “extra” compilado em dois tomos, "Nova York: A Grande Cidade" e "Cadernos de Tipos Urbanos". No primeiro caso, é material feito originalmente para a revista norte americana The Spirit Magazine entre 1981 e 83; no segundo, situações que ficaram de fora de outras graphic novels. Ambos são compostos por pequenas histórias, às vezes apenas vinhetas, que esquadrinham situações cotidianas. Vale dizer que duas das obras não são inéditas no Brasil: "O Edifício", publicada na série "Graphic Novel", da Editora Abril, e "New York: A Grande Cidade", publicada pela Martins Fontes, ambas no final da década de 1980.

A leitura de "Nova York - A Vida na Grande Cidade" leva a uma conclusão inevitável: o autor norte americano, morto em 2008, era de fato um romântico. Só isso explica sua obsessão em retratar a cidade grande como destruidora de almas e geradora de seres insensíveis, que leva os indivíduos a se tornarem invisíveis uns aos outros. Este é o tema principal, não só da literatura europeia do século 19 (romântica ou realista), como das artes do período (a pintura de Daumier, por exemplo), que viam na industrialização e na urbanização a degradação dos valores humanos e sociais. As grandes cidades já não são tão insalubres quanto eram as metrópoles europeias de duzentos anos atrás, mas nem por isso deixaram de dar sua parte na crescente desumanização de seus habitantes - o trânsito é um bom exemplo disso.

Will Eisner, por outro lado, é também claramente parte daquela linhagem de escritores norte-americanos, como Charles Bukowski, John Fante e Raymond Chandler, que nunca foram seduzidos pelos mitos do "american way" ou do "self made man" e que, por isso, se esforçavam tanto em retratar os “perdedores” , desiludidos e coadjuvantes da vida nas grandes cidades. É do retrato do cotidiano, do banal e até do violento que surge a poesia e a beleza na obra de todos eles. A diferença é que em Eisner existe essa tentativa quase constante de a todo custo culpar unicamente a cidade pela desumanização das pessoas, o que o joga lá para trás, em companhia dos escritores românticos e realistas-naturalistas.

Essa faceta um pouco incômoda do gênio dos quadrinhos fica mais evidente no “Caderno de Tipos Urbanos”, que tinha tudo para se figurar entre suas melhores obras, se ele abrisse mão do texto e deixasse as imagens falarem por si mesmas. São fragmentos de vidas, pequenas crônicas que tocam fundo a todos nós, pois falam, por exemplo, do apuro de um desempregado em pegar o metrô sem se atrasar para uma entrevista, que acaba não acontecendo. Tocaria ainda mais fundo não fosse a teimosia do quadrinista de se portar como um cientista num laboratório e usar o texto para explicar as coisas, reduzindo tudo a uma relação simples de causa e efeito, e as pessoas, como produtos diretos do meio ambiente em que vivem.

Quando ele abdica da obrigação de “explicar” aquilo que mostra, nos entrega pérolas, jóias desenhadas, como uma história em apenas quatro quadrinhos, onde em três deles um homem convulsiona numa calçada lotada de pessoas, que o ignoram. No último, ele aparece já morto e centro das atenções. Esse é o espírito da invisibilidade, que em outros grandes momentos desta edição surge como fábula (em "O Edifício" e seus fantasmas, que correm em socorro de uma garotinha em perigo), ou metáfora, como na história de Pincus Pleatnik, uma das quatro que compõem “Pessoas Invisíveis”. Lá, Pleatniki tanto evita o contato com outras pessoa que, quando é erroneamente dado como morto por um jornal local, ninguém sente sua falta e ele não consegue sequer provar que está vivo. Através do melodrama propositalmente exagerado, Eisner traduz a máxima psicanalítica que diz que só se existe em função do “Outro”, que nos serve de referência e afirma nossa existência.

“Nova York: A Grande Cidade” é poesia pura e, por contraditório que pareça, quase “neorrealista”. Eisner observa a cidade e as pessoas sem emitir julgamento e nos mostra crianças brincando com um hidrante aberto até serem interrompidas por um policial, ou as várias reações possíveis de diferentes pessoas em frente a uma caixa de correios. Nem tudo é perfeito em Will Eisner, mas seus grandes momentos são superlativos. E este “Nova York - A Vida na Grande Cidade” é precioso porque permite ao leitor tomar contato com as várias faces da sua arte, seja o melodrama, a fábula ou a crônica. E, mesmo quando escorregava, ele o fazia com uma grandeza incomum.

 

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