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17/07/2009

 
Jubiabá
     
   
  Editora: Cia das Letras 96 paginas
   
   
  Preço: R$ 33,00 Formato: 21 x 28 cm
 
 
 
 
     

 

   
 

Data do Review:  17/07/2009

Por:  Adilson Thieghi    

Roteiro e arte: Spacca

Adaptação para HQ do romance Jubiabá, escrito por Jorge Amado em 1935 e que conta a história do “negro valente e brigão”  Antônio Balduíno, aquele que “ furtou mulata bonita, brigou com muito patrão”, desde sua infância no morro do Capa-Negro, interior da Bahia, até a idade adulta, em Salvador.

Opinião:

Naquilo que diz respeito apenas ao trabalho de Spacca, podemos lembrar da máxima de Flavio de Campos em seu livro Roteiro de cinema e televisão (Jorge Zahar): “Uma adaptação só estará plenamente realizada se, ao final, ela se sustentar como obra autônoma”. O excesso de zelo e fidelidade à obra original pode custar um preço alto à alma da adaptação". Nesse sentido é quase didático o desencontro entre texto e imagem no filme Um Copo de Cólera, de Aluízio Abranches, que transpôs palavra por palavra o livro de Raduan Nassar. Já Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, também uma adaptação de Nassar, foi a que se deu melhor pois soube transmitir a essência (e não apenas a superfície) do livro. A fidelidade canina também feriu de morte Watchmen, de Zack Snider, decalque sem alma dos quadrinhos de Alan Moore e Dave Gibbons.

No caso de uma adaptação literária, não para o cinema, mas para os quadrinhos, há um fator complicador: muitas vezes é quase uma obrigação manter algo do texto original, seja nos diálogos, seja na voz do narrador, dado que se lida não com a palavra falada (como no cinema), mas sim com a palavra escrita. Ainda mais quando se lida com um texto que tem ritmo, sonoridade e cadência próprias, como o do autor de Dona Flor e seus Dois Maridos.

Spacca, sempre reverente, cumpriu bem a tarefa de traduzir em imagens toda a riqueza descritiva do escritor baiano. Num único quadro de página inteira, onde nos mostra o jovem Antônio Balduíno caminhando altivo pelo Pelourinho, entendemos a maneira como o garoto briguento vive livre, como um pequeno rei, um Zumbi em seu Palmares. São preciosas as últimas páginas do álbum que trazem, além de estudos de roteiro e comparação com trechos do livro, esboços de Spacca. Lá é possível ver como ele poderia ter desenhado os personagens e cenários de maneira realista. Tivesse optado por isso, no entanto, entregaria um retrato fiel da Bahia da década de 1930, mas não conseguiria transmitir tão bem o espírito da obra. Seus desenhos são cheios de curvas, alegres e coloridos como a Bahia de Jorge Amado. Numa comparação bem livre, pode-se dizer que Spacca trilhou menos o caminho do retratismo de Debret (pintor oficial do Brasil nos tempos do Império) e mais o da sensualidade e da liberdade no trato com as cores e formas, de Di Cavalcanti. E é por isso que devemos considerar esta HQ como uma obra autônoma, com identidade própria, e não um mero convite à leitura do romance.

Quanto à história, ela é exatamente a mesma do original, portanto aqui deixamos de falar do quadrinista para nos concentrar unicamente no romancista. Apesar de ser a obra de um autor ainda incipiente (Jubiabá foi escrita vinte anos antes de Gabriela Cravo e Canela), já se pode notar aqueles elementos que posteriormente serviriam de inspiração para que o antropólogo Roberto DaMatta escrevesse seu clássico A Casa e a Rua, um dos mais importantes estudos sobre a construção, organização e identidade da sociedade brasileira.

Para ficar num único exemplo: a figura do Comendador Pereira, português que diz que cria Balduíno como a um filho, mas o trata como um senhor que permite que seu escravo more na Casa Grande. Esse personagem expressa muito do paternalismo e do racismo cordial que infelizmente ainda hoje imperam, assim como os garotos pedintes e sua lábia, que apenas migraram para os trens metropolitanos.

Agora, se o leitor quiser realmente saber quem é Jubiabá, que compre o álbum ou o romance.

 

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