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03/07/2009

 
Solar - Renascimento
     
   
  Editora: Independente 48 paginas
   
   
  Preço: R$ 5,00 Formato: 17 x 24 cm
 
 
 
 
     

 

   
 

Data do Review:  03/07/2009

Por:  Adilson Thieghi    

Criação e roteiro: Wellington Srbek
Arte: Rubens Lima

Publicado originalmente na década de 1990 em uma série com 14 capítulos, Solar retorna nesta edição especial que reconta a origem do herói, alterego de Gabriel Ribeiro, um jovem que ganha a capacidade de voar após uma experiência mística. A edição pode ser adquirida através do site www.maisquadrinhos.com.br.


Opinião:

De Wellington Srbek não se deve pedir pouco. O roteirista mineiro já trabalhou, em 2001, com o fantástico desenhista Flávio Colin (1930- 2002) para trazer ao mundo Estórias Gerais, ousada incursão no universo de Guimarães Rosa republicada pela Conrad em 2007. Sua obra mais recente, Solar - Renascimento é, no entanto, irregular, cheia de altos e baixos. Por isso fica muito aquém de Estórias Gerais – e é o caso de se pensar na “benção maldita” que é ter uma obra como esta no currículo.

Antes de qualquer crítica, no entanto, é preciso saudar a iniciativa de Srbek, que roteiriza, edita e vende sua HQ de maneira totalmente independente e a um preço mais do que generoso. Óbvio que não é um produto de luxo, mas é bastante decente; não é pouca coisa e é preciso bastante coragem para isso. Coragem também para encarar mais um terreno perigoso, desta vez o dos super-heróis.

A proposta de Srbek é fazer uma história com uma identidade brasileira que não se manifeste apenas nos nomes dos personagens ou nos cenários, ou seja, algo que vá além de uma mera transposição das tramas típicas dos universos Marvel e DC. Não é nada fácil, afinal, assim como o western, as histórias de super-heróis são tipicamente norte-americanas e seus códigos recorrentes refletem o individualismo e a posição belicosa deste país frente ao mundo.

Nem é preciso um mergulho muito profundo nos textos de Sérgio Buarque de Holanda (autor de “Raízes do Brasil”) para entender que a ideia de um herói superpoderoso combatendo um arquiinimigo é algo completamente inconcebível num país como o Brasil, onde as relações são pautadas mais pela negociação do que pelo enfrentamento (a tal da cordialidade).

Srbek compreende isso muito bem, motivo pelo qual seu Gabriel Ribeiro não tem identidade secreta, nem superforça. Apenas a capacidade de voar. Ele também não quer salvar o mundo (quantas guerras esse discurso já motivou?) e a única ameaça enfrentada pelo herói é um incêndio numa favela. É justamente aí que a coisa escorrega. Uma senhora que acabara de ser salva diz “Deus lhe pague, meu fio! Mas... ocê avua?” bem depois do herói afirmar “vou tirá-la daqui num instante”.

Para quem já se aventurou no mais espinhoso terreno da literatura brasileira (a questão de Guimarães Rosa é justamente a linguagem) é desnecessário o uso de um texto gramaticalmente incorreto apenas para a fala de uma pessoa pobre. O texto escrito é de outra natureza e pede uma moral diferente da fala (como seria o caso do cinema); todos, doutorados ou analfabetos, no dia a dia, falam de maneira “errada” e transcrever essas vozes diferentemente para um e outro pode acabar soando como preconceito (ainda que involuntário, como é o caso).

Outro ponto é a tribo indígena que guarda o segredo da origem dos poderes de Solar. Inteligentemente, Srbek varreu para longe a origem alienígena ou o experimento científico e demonstrou orgulho por esta página esquecida do nosso passado nacional. O problema está no retrato ingênuo de uma tribo idílica, espécie de éden corrompido pelos brancos. Não é pedir por uma aula de antropologia, mas sim por alguma complexidade que está presente, por exemplo, em Os Brasileiros, álbum de André Toral publicado este ano pela Conrad. Pode-se argumentar que a tribo idealizada é mitológica (como as várias idades de ouro desse tipo de narrativa) e a discussão iria longe, envolvendo de Roland Barthes a Joseph Campbell, mas o caso é que os mitos também se modificam para manterem sua força.

Mas a maior fragilidade está mesmo nos desenhos de Rubens Lima. Seria fundamental um artista que fosse capaz de captar essa identidade brasileira desejada por Srbek através dos rostos e corpos, que pudesse dar forma fiel ao conteúdo proposto, não apenas entregar traços genéricos, sem domínio de luz e sombra e com evidente limitação na construção de tipos humanos. Faz lembrar o episódio da diretora Norma Bengel, quando chamou o ator global Márcio Garcia para viver o índio Peri em sua versão de O Guarani, de 1996 (mas aí o caso é outro, é de má fé mesmo).

Mas claro, há também coisas muito boas. As duas primeiras páginas são sensacionais; o logotipo da revista é sutilmente genial, com a letra “O” de “Solar” grafada como se fosse uma pintura rupestre; e a trama focada na descoberta dos poderes do herói é bastante envolvente. Feitas as contas, vale a compra da revista. Há ainda um longo caminho a ser percorrido por Solar e seu criador, caso queiram atingir todo o potencial do personagem, que, é bom dizer, é de 1994 e ganha aqui uma reformulação. É bastante coisa, mas para Wellington Srbek não é muito não.

 

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