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11/03/2009

 
Che - Os Últimos Dias de Um Herói
     
   
  Editora: Conrad 96 paginas
   
   
  Preço: R$ 34,90 Formato: 21 x 27 cm
 
 
 
 
     

 

   
 

Data do Review:  11/03/2009

Por:  Artur Tavares    

Roteiro: Héctor Oesterheld
Arte: Alberto e Enrique Breccia

Biografia de Che Guevara feita pelos mestres argentinos Héctor Oesterheld, Alberto (que, embora naturalizado argentivo, nasceu no Uruguai) e Enrique Breccia. Conta a história da vida do guerrilheiro e médico argentino Ernesto Guevara, que contribuiu com a Revolução Cubana e foi morto anos depois na Bolívia, quando também tentava libertar o povo de um regime desigual.

Opinião:

Um dos mais belos contos dos quadrinhos. É difícil dizer outra coisa deste Che - Os Últimos Dias de um Herói. A história escrita por Héctor Oesterheld apenas três meses depois do assassinato do guerrilheiro nas cordilheiras bolivianas por agentes da CIA é um relato emocionante, que mistura, de forma não linear, a vida de Guevara na Argentina e sua luta em Cuba com seus últimos dias na Bolívia, retratados em um misto de diário e documentário.

Esta edição mostra o verdadeiro Ernesto “Che” Guevara – não um revolucionário de esquerda, comunista, socialista, ou vermelho, como entrou para a deturpada história anos depois – e sim como um revolucionário humanitário, que lutava pela mudança de regimes políticos não por ideologia, mas por entender que toda a sociedade deve ter o mesmo peso e importância em um país, fato que fica mais claro ao fim do álbum, quando Guevara reflete, sabiamente, que “o piolho e o lucro sobreviverão. Mas a esperança está um pouco mais próxima, valeu a pena. Sim. Valeu a pena. Agora já existe mais paz”.

É este sentimento de revolta que fica no leitor quando o álbum é lido por completo. A reflexão criada por Oesterheld gira em duas frentes. A primeira é a mais óbvia: um sentimento de revolta pelas instituições vigentes há tantos séculos, que tratam de criar desigualdade social, miséria de tantos para bem exacerbado de alguns. A segunda, mais complicada, trata de um sentimento pessoal, de que a vida que vivemos hoje não é digna. Não fazemos nada para mudar o que está aí.

Não digo, e não me entendam errado, que precisamos pegar em armas e fazer revoluções como as propostas por Guevara. O problema é que não fazemos (nós, a sociedade) nada para mudar a podridão que assola nosso país, nossa América, nosso planeta – cada vez mais à beira de um colapso social. Votamos, é verdade, mas votamos errado. Não fiscalizamos nossas instituições, e, passa-se a época eleitoral, nem lembramos quem colocamos no poder. Durante os anos seguintes, só sabemos reclamar das mazelas que nos assolam. O ciclo se repete a cada dois anos, a cada eleição, a cada bando podre que elevamos ao poder. É, acima de tudo, disso que Che - Os Últimos Dias de um Herói fala.

Não menos importante é a arte de Alberto Breccia e de seu filho, Enrique. O preto e branco chapado vai do mais simples – nos momentos mais felizes e calmos da vida de Che – ao mais confuso, nos momentos mais tensos, principalmente nos conflitos armados, que não são poucos durante o álbum. É quase surrealista, e ao mesmo tempo muito real. Se os borrões doem aos olhos à primeira vista, depois os olhos se acostumam com a velocidade em que os desenhos resumem o conto.

O contraste entre o preto e o branco ainda serve de equilíbrio emocional. Mais preto, claro, simboliza mais tristeza, ou introspecção. Mais branco, aqui, significa vitória, esperança, sentimento de que as coisas realmente podem mudar.

Che - Os Últimos Dias de um Herói é muito mais que um álbum em quadrinhos. É também muito mais que uma biografia. É um livro que deve ser lido por cada uma das pessoas que habitam este mundo. Engrandece e inspira o ser. Ensina que a vida não pode ser vivida como se aqui estivéssemos de passagem. A revolução não será armada, nem televisionada. Ela virá do coração do ser humano, que um dia vai fazer da humanidade o que ela realmente deveria ser: a humanidade.

Não um poço de porcos que se aproveitam de tantas vidas mal vividas, insignificantes, tristes, massacradas.

 

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