MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
03/12/2008
ENTREVISTA: J.M. DeMATTEIS
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 



É isso mesmo!! John Marc DeMatteis ou simplesmente J.M. DeMatteis, se você não sabe, foi o responsável por enterrar o nosso querido Amigão da Vizinhança, em A Última Caçada de Kraven! E não foi só isso. Ele também foi o responsável, juntamente com Keith Giffen, pela fase cômica da Liga da Justiça, além de ter escrito Moonshadow, a primeira minissérie totalmente pintada, magistralmente ilustrada por Jon J. Muth e Kent Williams. Quer saber mais? Veja então a entrevista exclusiva que J.M. DeMatteis concedeu ao HQ Maniacs.

HQM: Você começou sua carreira na música, como jornalista e crítico. Poderia falar um pouco sobre este período?
J.M. DeMatteis:
Sempre adorei música e, na quinta série, quando vi os Beatles no programa do Ed Sullivan, minha jovem mente ficou completamente extasiada. Na sexta série comecei a aprender guitarra, a tocar em algumas bandas e continuei tocando até meus 20 anos. Nunca ganhei muito dinheiro, mas sobrevivia. Era o bastante para pagar minha parte no aluguel, pelo menos. Eu morava com meus parceiros de banda, ensaiava no porão e me divertia muito. Por fim, percebi que não possuía o temperamento necessário para isso. A vida na estrada acabaria me matando. Ainda toco e escrevo músicas. Gravei um CD em 1997, com meu material original – o título é How Many Lifetimes? e está à venda no iTunes e no CDBaby.com – e planejo gravar outro. Mas sou o tipo de cara que fica muito mais feliz trabalhando em casa.

Sempre me interessei por escrever. É natural que meu amor pela música e pela palavra escrita colidissem, e assim entrei para o jornalismo musical. Comecei em jornais pequenos, locais, fazendo entrevistas e críticas de gravações. Então, por fim, arranjei um trabalho pequeno, freelance, para a Rolling Stone. Percebi que preferia ser o cara nas trincheiras, criando o trabalho que seria criticado, do que ser o cara que fazia a crítica.

Como você entrou para os quadrinhos? Qual seu primeiro contato?
DeMatteis:
Tentei por vários anos colocar meus pés na Marvel e na DC, mas fui rejeitado (e recebi algumas migalhas de encorajamento). Através de um amigo de faculdade, vendi alguns materiais para a Crazy Magazine – uma espécie de Mad publicada pela Marvel – mas isso não me ajudou muito. Por fim, enviei algumas histórias para Paul Levitz, quando ele era editor das antologias da DC – House of Mystery, Weird War Tales, essa leva estranha de títulos – e vendi uma delas. E então outra. E outra. É assim que carreiras nascem.

E quanto ao trabalho como profissional? Como você decidiu começar a escrever quadrinhos?
DeMatteis:
Sempre adorei quadrinhos. Leio HQs desde que me lembro. E sendo um sujeito criativo – quando criança, na verdade, passava mais tempo desenhando do que escrevendo – sempre acalentei sonhos de trabalhar no ramo. Dizia a mim mesmo: “Quero fazer isso!”. Bati com a cabeça em algumas paredes ao longo do caminho, mas consegui.

Quais são suas influências e artistas prediletos? Você acompanha algum título atualmente? Qual seu preferido?
DeMatteis:
Falando estritamente sobre quadrinhos: Stan Lee, Jack Kirby, Gardner Fox, John Broome, Len Wein, Steve Gerber, só para nomear alguns. E autores fora dos quadrinhos: Dostoyevsky, Ray Bradbury, J.D. Salinger, Charles Dickens, Kurt Vonnegut e muitos mais. Não acompanho muitas revistas atuais, mas sou fã da Spider-Girl (de Tom DeFalco), Godland de (Joe Casey) e Kabuki (de David Mack). Mais freqüentemente, quando tenho tempo para ler algo, prefiro ler um livro. Passo a maior parte do meu dia mergulhado em quadrinhos e assuntos relacionados, e é importante mudar de ambiente.

A década de 1980 foi uma das épocas mais prolíficas de sua carreira. Vamos falar sobre esses dias, começando com A Última Caçada de Kraven. Como esta história surgiu?
DeMatteis:
Os anos 80 foram uma época maravilhosa para trabalhar nos quadrinhos, porque a comporta da criatividade havia sido escancarada. Todo mundo tentava novos formatos, gêneros, abordagens inteiramente novas para a narrativa. Eu decidi, logo no começo, que não queria me limitar a um tipo de revista em quadrinhos – não queria ser rotulado como escritor de apenas um gênero. Então fiz projetos mainstream com o Homem-Aranha e Capitão América, projetos pessoais como Moonshadow e Blood: Uma História de Sangue, o material engraçado com Keith Giffen, na Liga da Justiça Internacional.

O constante desafio a mim mesmo manteve a vida interessante e me permitiu realmente crescer como escritor. Um dos motivos pelos quais A Última Caçada de Kraven foi feita daquela maneira é porque eu havia acabado de sair de Moonshadow. Eu havia adentrado em novas áreas como escritor, distanciando-me completamente da maneira de pensar da Marvel. E fui capaz de trazer esta nova visão para o Universo Marvel, criando uma história que era totalmente diferente de qualquer outra história de super-heróis que escrevi antes.

Recentemente você revelou algumas curiosidades sobre A Última Caçada no blog da Amazon, envolvendo personagens como Batman e Magnum. Poderia contá-las a nossos leitores?
DeMatteis:
À certa altura, por volta de 1984 ou 1985, tive uma idéia para uma minissérie para o Magnum: Simon Williams, derrotado em batalha pelo irmão, o Ceifador, acorda em um caixão, cava seu caminho para fora e descobre que esteve enterrado durante meses. Tom DeFalco, então o editor-executivo da Marvel, prontamente rejeitou a história. Mas havia algo nesse conceito de “retornar do túmulo” de que eu não queria abrir mão.

Alguns meses mais tarde, propus uma variação da idéia para Len Wein, então editor da DC: o Coringa mata Batman (ou pelo menos assim acredita) e, com a razão primária de sua existência eliminada, a mente do vilão entra em colapso. É claro que o Coringa já é insano, então quando ele surta... ele fica são. Batman, enquanto isso, está enterrado e, semanas depois, cava seu caminho para fora do túmulo – a frágil nova existência do Coringa termina tragicamente. Len tinha outra história com Batman e Coringa na gaveta – A Piada Mortal de Alan Moore – e achou que certos elementos do Coringa de minha história se sobrepunham a elementos na de Alan. Rejeitado. Novamente (consegui reviver Batman: Going Sane quase uma década mais tarde - a história foi reunida em um encadernado pela DC). Nota do HQM: No Brasil, tal história foi publicada na minissérie Um Conto de Batman: De Volta À Sanidade.

Então reescrevi de novo, ainda usando o Batman. Removi o Coringa e o troquei por Hugo Strange. Lembro-me de uma história clássica de Steve Englehart e Marshall Rogers, na qual Hugo Strange vestia o uniforme do Batman, por duas páginas inteiras, acho, e pensei: “Não seria interessante se Hugo Strange fosse aquele que aparentemente mata o Homem-Morcego e, do alto de seu ego e arrogância, decide se tornar o Batman, usando o uniforme, assumindo o papel, de maneira a provar sua superioridade?”. Estava convencido de que tinha uma história que editor algum poderia recusar. Naquela época, Len Wein havia se tornado freelancer e Denny O`Neil o substituiu como editor do Batman. Adivinhem só? Denny rejeitou.

Em 1986, eu estava visitando os escritórios da Marvel quando Tom DeFalco e Jim Owsley, editor da linha do Homem-Aranha, me pediram para assumir os roteiros de Spectacular Spider-Man. Concordei e logo percebi que tinha outra chance de usar essa idéia de “retornar do túmulo”. Mais importante: descobri, conforme trabalhava na proposta, que o Homem-Aranha – recém-casado com Mary Jane – era de longe uma escolha melhor que Magnum ou Batman. Peter Parker talvez seja o protagonista mais autêntico, emocional e, psicologicamente, em qualquer universo de super-heróis, é a quintessência do homem comum. E o amor deste homem comum por sua nova esposa, pela nova vida que os dois construíam juntos, era o combustível emocional que incendiou a história. Foi a presença de Mary Jane, o coração e alma dela, que alcançaram as profundezas do coração e alma de Peter, forçando-o a sair daquele caixão, para fora do túmulo, em direção à luz.

Minha intenção era criar um novo vilão para interpretar o papel de Hugo Strange, mas certa tarde, eu estava sentado no meu escritório, folheando um Marvel Universe Handbook. Parei, sem motivo em particular, na entrada de Kraven, o Caçador. Eu não tinha interesse algum nele. Mas, enterrado no meio daquela entrada do Marvel Universe, havia um fato intrigante: Kraven era russo. Por que isso me empolgaria? Uma palavra: Dostoyevsky. Nenhum outro romancista explorou a inacreditável dualidade da existência, iluminou os místicos ápices e as desprezíveis profundezas do coração humano com o brilhantismo de Dostoyevsky. Ele era, e ainda é, um dos meus deuses literários de todos os tempos. Em um instante, compreendi Sergei Kravinov, e a história inteira mudou de foco. Liguei para Owsley e disse para ele esquecer o novo vilão: aquela era uma história de Kraven, o Caçador. E foi assim que surgiu A Última Caçada!

Quando você trabalhou no Homem-Aranha, criou algumas histórias mais sombrias que o usual para o personagem. Foi uma tentativa de amadurecer o herói? De tentar uma abordagem diferente?
DeMatteis:
Não foi uma abordagem consciente. Quando escrevo, apenas deixo que as histórias me guiem. Se escrevi o Homem-Aranha de certa maneira, foi porque as histórias, e os personagens, pediram isso. Sempre fui um escritor (e um indivíduo) obcecado com o lado espiritual e psicológico dos personagens. Suas vidas interiores sempre me fascinaram, muito mais que suas habilidades para voar ou erguer um prédio. E isso se reflete em todas minhas histórias. Visto que Peter Parker era um personagem de tamanha profundidade, era apenas natural que as histórias que escrevi se tornassem mais profundas e sombrias que o costumeiro.

Como foi a experiência de escrever a Liga da Justiça com Keith Giffen, mudando o foco dos super-heróis em ação para o humor?
DeMatteis:
Andy Helfer, um dos melhores editores com que trabalhei, me laçou para o projeto da Liga da Justiça. E, francamente, eu não sabia muito bem se deveria aceitar. Basicamente, eu achava que Keith era um escritor bom o bastante para se virar sozinho, sem meus palpites. Mas ele se sentia inseguro com seus textos, e Andy teve aquela intuição de que eu seria o cara certo para ajudar Keith a fazer a série funcionar. Minha relutância inicial logo se esvaiu, e trabalhar na Liga da Justiça foi, e ainda é, um dos pontos altos de minha carreira. Especialmente, por causa da alegria de trabalhar com Giffen.

Nossa colaboração foi (e é) uma parceria baseada em dois ingredientes: espontaneidade – ninguém acredita, mas freqüentemente eu não fazia a menor idéia do que aconteceria na edição seguinte, até que o esboço de Keith chegasse – e confiança. A confiança era a chave, creio eu. Eu nunca sabia o que esperar em determinado mês, mas sabia que Keith – um dos seres humanos mais essencialmente criativos que já conheci (o homem tem mais idéias viáveis para histórias em um dia do que eu em um ano) – entregaria algo bom. E Keith – o tolo – confiava em mim o bastante para me dar toda a corda necessária para me enforcar. Às vezes eu ficava dentro dos parâmetros do universo de Giffen, mas outras vezes eu fugia para universos meus. Novos relacionamentos e reviravoltas na trama surgiam nos diálogos. A versão impressa por vezes era muito distante da intenção inicial de Keith. E ele nunca reclamou. Seu ego jamais chegou a se interpor. Escrever a Liga da Justiça era como jogar uma relaxante partida de tênis: Keith me jogaria a bola, eu jogaria de volta, ele retornava e, a cada batida da raquete, a história cresceria muito além do que nós dois pretendíamos.

Ainda com Giffen, você lançou Hero Squared e Planetary Brigade, pelo Boom! Studios. Como surgiram estes dois títulos? Qual a diferença entre trabalhar em uma revista de super-heróis para uma editora grande como a DC ou a Marvel, e uma menor como o Boom?
DeMatteis:
Keith era amigo do co-fundador da Boom!, Ross Richie, e quando a editora era apenas uma idéia na cabeça de Ross, ele pediu a Keith que lhe escrevesse uma série. Ross esperava que Keith e eu fizéssemos uma nova versão da Liga da Justiça: um grupo de heróis com a marca do humor e aventura patenteadas por Giffen-DeMatteis. Mas Keith tinha a idéia para Hero Squared cozinhando no fundo de sua mente febril. Ele me propôs a idéia e fomos em frente, pegando o conceito original e dando uma versão em carne e osso. Não demorou muito até que percebêssemos que Hero Squared era a melhor coisa que já havíamos feito juntos. Essa foi também a primeira vez em que eu e Keith trabalhamos em um projeto original, que pertencia a nós mesmos. Não havia ninguém – nenhum editor, nenhum publisher – que pudesse nos dizer o que fazer com os personagens, que direção tomarmos. Nós tínhamos – e temos (estamos trabalhando em uma nova minissérie, Hero Squared: Love and Death) – completa liberdade.

Planetary Brigade surgiu de forma estranha: conforme eu escrevia o roteiro de Hero Squared, acrescentava referências a personagens e incidentes do mundo natal de Valor. Os nomes simplesmente pipocavam em minha cabeça: The Mauve Visitor, Earth Goddess, uma superequipe chamada Planetary Brigade. Eu os inseria nos diálogos, só para me divertir e aprofundar um pouco a mitologia. Conforme prosseguíamos, pensei que seria interessante escrever uma história ou duas sobre o passado de Valor e seu mundo natal, usando a Planetary Brigade. Keith e eu começamos a discutir os personagens: “Certo, temos os nomes e alguns conceitos gerais, mas quem são eles?”. Logo os personagens começaram a criar vida e acabamos fazendo duas minisséries com eles. Assim, no final das contas, Ross Richie conseguiu sua série de super-heróis!

Para terminar com o gênero de super-heróis, você trabalhou com vários personagens famosos, como Batman, Espectro, Homem-Aranha, Doutor Estranho e incontáveis outros. Qual seu favorito? E de qual história mais gosta?
DeMatteis:
Gosto de todos eles. O Doutor Estranho e o Surfista Prateado talvez sejam meus personagens favoritos, mas minha passagem pela revista do Surfista foi um pouco frustrante, por motivos que não preciso mencionar. O mesmo com minha breve passagem pela revista do Doutor Estranho, embora eu adore a graphic novel dele que fiz com Dan Green, Shamballa. Se eu olhar minha estadia no universo de super-heróis, diria que meus prediletos são meu trabalho no Homem-Aranha, a história Going Sane do Batman e minha passagem, com Shawn McManus, pela revista do Senhor Destino – que não era bem uma série de super-heróis, mas era quase. Com Destino, pude tecer comédia, super-heróis, sobrenatural, misticismo e espiritualidade em uma maravilhosa e excêntrica mistura. Adoraria ver essas histórias reunidas em um encadernado qualquer dia desses.

Moonshadow é tida como a primeira minissérie inteiramente pintada. Como essa história nasceu? Quem teve a idéia de fazê-la em aquarela? Houve alguma dificuldade técnica em sua elaboração e publicação?
DeMatteis:
Começamos a trabalhar em Moonshadow em 1984. A linha Epic, da Marvel, estava começando e editoras alternativas interessantes estavam aparecendo. Lembro-me de olhar ao redor e ver Camelot 3000 e Ronin da DC, e pensar: “Não quero ficar limitado a escrever Capitão América e os Defensores”. Tinha a idéia para Moonshadow na cabeça há alguns anos e acho que meu contrato com a Marvel estava vencendo. Falei com Karen Berger, da DC, sobre Moonshadow, e ela adorou. Estava decidida a publicar. Assim, eu estava pronto para voltar para a DC, e Karen queria lançar Moonshadow. Len Wein me ofereceu Monstro do Pântano e, se eu tivesse aceitado, Alan Moore não receberia o trabalho, e uma era inteira da história dos quadrinhos nunca aconteceria. Pelo menos, não do mesmo jeito.

Também me ofereceram a Liga da Justiça. Conversei com o então editor-chefe da Marvel, Jim Shooter, para decidir minha posição. Disse a ele que tinha um par de projetos que queria fazer, caso fosse continuar na editora, pois eu queria a liberdade de fazer coisas além de super-heróis. Os dois projetos eram Moonshadow e Greenberg the Vampire. Eu havia feito Greenberg, uma história em preto e branco publicada na revista Bizarre Adventures da Marvel, mas queria fazer uma graphic novel. Jim a princípio disse “não”, mas ao longo das negociações contratuais, ele falou: “Claro, a tal Moonshadow soa como uma HQ da Epic”. E assim, participei dos primórdios da Epic. Trabalhar em Moonshadow realmente me ajudou a me tornar o escritor que sou hoje.

Nos primeiros dias, minha cabeça dizia: “Estou escrevendo para a Marvel Comics... é preciso escrever desse jeito tal para que seja Marvel Comics” – e minhas inclinações naturais não pendiam para esse lado. Minhas inclinações se desviavam bastante do centro – estranhas e mais pessoais – e ainda assim eu continuava tentando escrever para o centro. Se você olhar para minha passagem nos Defensores, especificamente, verá toda minha estranheza desesperadamente lutando para sair. Eu apenas não tinha a perícia para expressá-la. Eu ainda não tinha a habilidade desenvolvida o bastante... ou mesmo desenvolvida... para contar o tipo de histórias que eu desejava contar.

O que Moonshadow de fato fez por mim foi me libertar do padrão Stan Lee. Libertar de escrever no modelo Marvel Comics. Eu estava criando uma história, e poderia escrevê-la como se fosse uma obra de ficção – sentado em casa, trabalhando em uma idéia para um livro ou conto. Esta foi a coisa mais libertadora que já me aconteceu. E tive muita sorte, através de Dan Green, de conhecer Jon J. Muth, esse artista extraordinário que fazia uma bela arte, não arte para quadrinhos. Eu tinha conversado com um bom número de artistas de quadrinhos sobre o trabalho. Isso teria mudado o tom da série inteira. Agora, eu estava em uma posição em que poderia responder à arte estonteante de Muth. No começo, ele visualizava a história ainda melhor do que eu. Ele compreendeu intuitivamente minha intenção, e refletiu isso em seus esboços iniciais e na concepção dos personagens – o que, por sua vez, inspirou-me a alcançar um nível de perícia, e arte, que eu nunca havia atingido antes. Fui em frente e escrevi. E não era “uma história de gibis”. Era simplesmente uma história. Isso me transformou totalmente como escritor.

Cada edição de Moonshadow era um novo desafio, uma nova oportunidade para agarrar. Muth fez surgir elementos até então inéditos em minha narrativa, e fiz o mesmo por ele. Levei-o a lugares onde ele nunca levaria sua arte se não tivéssemos colaborado. Foi uma experiência fabulosa que mudou profundamente minha abordagem ao escrever quadrinhos.

Agora, vamos falar sobre alguns de seus trabalhos ainda não publicados no Brasil, como Abadazad e Stardust Kid, com o lendário artista Mike Ploog. São duas histórias de fantasia, voltadas para um público de todas as idades. Poderia falar um pouco sobre esses dois trabalhos? E por que você decidiu escrever para um público mais jovem?
DeMatteis:
Venho dizendo há anos e anos que a indústria contemporânea de quadrinhos voltou suas costas aos jovens leitores. Você acha uma exceção ocasional a essa regra, mas, para a maioria, o público diminui cada vez mais, conforme as editoras se esforçam para ser “de vanguarda” e “adultas”.

Por favor, notem: não estou reclamando da qualidade das revistas ou de seus autores. Estou apenas falando da direção geral. Também não penso que haja qualquer coisa errada com os quadrinhos adultos, afinal de contas, sou o cara que escreveu Moonshadow, Seekers Into the Mystery, Brooklyn Dreams e muitas outras HQs para o público maduro. Mas quando a maioria dos quadrinhos mainstream de super-heróis não são adequados para alguém de oito ou nove anos, acho que realmente saímos dos trilhos. Penso que é um desserviço incrível para nossas crianças não haver gibis que transcendam as rotineiras adaptações de desenhos animados que são jogadas no mercado. Precisamos de material desafiador, culto, belamente ilustrado, na tradição da melhor literatura infantil.

Eu vinha tentando decolar alguns títulos infantis por um tempo... e não havia encontrado ninguém que realmente “entendesse” do que eu estava falando. Até que bati na porta da CrossGen com Abadazad: uma aventura fantástica adequada para crianças – na tradição de Oz, Nárnia, Terra do Nunca, Dr. Seuss, Madeleine L´Engle, A.A. Milne, Susan Cooper e de todas as grandes histórias infantis que alimentaram minha alma e a de meus filhos. Na história, Abadazad é uma terra mágica que a personagem principal, Kate, conhece apenas por meio de uma série de famosos romances fantásticos de um escritor chamado Franklin O. Davies, até que ela subitamente se descobre viajando pela verdadeira Abadazad, em busca de seu irmão há muito perdido.

A resposta incrivelmente positiva à série da CrossGen – e aos livros de Abadazad que fizemos para o selo Hyperion Books For Children da Disney – fez perceber que eu não era o único faminto por este tipo de material. Essa é uma das razões por que Mike Ploog e eu fomos adiante e fizemos Stardust Kid. Na história, Paul Brightfield é o melhor amigo de Cody DiMarco, de doze anos. O elo entre os dois meninos é mais profundo que alguém possa suspeitar. Vejam, Paul Brightfield não é humano: ele é o último dos Old Ones, seres elementais ancestrais da época antiga – quando homem nenhum caminhava sobre a Terra e a mágica era livre – e Cody é o único no mundo que conhece o segredo de Paul. Uma noite de outubro, Paul Brightfield desaparece e, ao mesmo tempo, em um parque próximo, um imenso casulo brota do solo. Dentro do casulo vive uma criatura cheia de ódio, que logo destruirá a vida de Cody – e as vidas de todos que ele ama. Sinto-me incrivelmente orgulhoso de Abadazad e Stardust Kid, e ansioso por escrever mais histórias para jovens leitores (e seus pais), tanto em quadrinhos como em livros.

Neste mês, o Boom! Studios republicará Seekers Into the Mystery e The Last One. Estas obras, juntamente com Mercy e Farewell, Moonshadow, foram antes publicadas pela linha Vertigo. Você poderia nos contar sobre este período? Como foi trabalhar na Vertigo?
DeMatteis:
Bem, uma das coisas das quais me orgulho muito em minha carreira é o fato de que sempre fui e voltei entre o material mainstream de super-heróis e o material mais pessoal e idiossincrático. Isso realmente começou na Epic Comics, com Moonshadow e Blood: Uma História de Sangue. Estive presente no estágio inicial de uma linha revolucionária. Infelizmente, a Epic mudou de direção ao longo dos anos e nunca mais foi a mesma que era em seu início, quando Archie Goodwin estava no comando. A Vertigo veio alguns anos depois para preencher esse vazio.

Karen Berger é uma velha amiga – nos conhecemos antes que qualquer um de nós trabalhasse com quadrinhos – e foi muito empolgante fazer parte do lançamento da Vertigo. Minha graphic novel Mercy foi um dos primeiros títulos publicados. E foi seguida em pouco tempo por The Last One, Seekers Into the Mystery e a seqüência de Moonshadow, Farewell, Moonshadow. A Vertigo, tal qual a Epic, era – e ainda é – uma linha que respeita a visão única e individual do autor, e encoraja escritores e artistas a cavarem fundo e contarem a história mais importante para eles. Trabalhar com Karen e Shelly Bond foi uma experiência maravilhosa.

Também tive sorte o bastante para participar do lançamento da linha Paradox Press, da DC, quando Glenn Barr e eu fizemos Brooklyn Dreams. Andy Helfer era o editor e, tanto no formato quando no conteúdo, ele era muito acima da média. Foi-nos permitido contar a história exatamente da maneira como queríamos, sem interferência editorial. Não dá para ficar melhor do que isso.

O misticismo é tema de muitas de suas histórias, que incluem jornadas espirituais, como aquelas vistas no Senhor Destino. Este é um assunto querido para você? Há um lado pessoal nessas histórias?
DeMatteis:
Sempre fui obcecado por histórias que entram nas mentes e corações das pessoas. Isso porque descobri, muito cedo, que é o mundo interior que realmente define nossa percepção do mundo exterior. Segundo minha experiência, tudo na vida, não importa como pareça ser na superfície, é na verdade uma busca por significado, por respostas. Por Deus. De uma forma ou de outra, tentamos entender Quem Realmente Somos. Qual a importância de nossas vidas. Qual é o cenário maior. Aos dezessete anos, tive uma experiência com o Divino que me transformou completamente, e a minha percepção do meu lugar no universo (escrevi sobre esta experiência em Brooklyn Dreams). Isso me levou a uma jornada espiritual que continua até hoje. E irá, suspeito eu, continuar por muitas vidas futuras.

Sendo um veterano da indústria dos quadrinhos, e também tendo trabalhado no cinema e televisão (como na série animada da Legião dos Super-Heróis, por exemplo), como você vê a diferença entre essas mídias? O quanto a estrutura do roteiro é diferente?
DeMatteis:
Trabalhei na televisão, tanto com live action quanto com animação, e é uma área diferente. Uma da qual gosto muito. Mas um roteiro para cinema ou TV tem uma estrutura bastante diferente, uma fluência diversa, um uso diferente da linguagem. É algo muito específico. Muitas pessoas traçaram paralelos entre filmes e quadrinhos, alguns chegam a chamar as HQs de “filmes no papel”. Discordo enfaticamente. O que eu gosto nos quadrinhos é que eles são, acima de tudo, um gênero literário. Sim, são incrivelmente visuais – e nesse ponto a comparação com filmes é justa – mas dão muito mais margem para exploração interior, para a descrição, para criar climas e texturas com a linguagem. Creio que há uma maior afinidade entre quadrinhos e romances do que entre quadrinhos e filmes. Também acho que há um paralelo entre escrever poesia e escrever quadrinhos: cada página de uma HQ é separada em quadros que interagem entre si, que seguem um ritmo que flui muito próximo da poesia. Pelo menos, da maneira como escrevo.

E esta é a beleza: os quadrinhos são algo único, e todas as comparações se exaurem depois de um tempo. A melhor forma de encarar isso é saber que os quadrinhos podem ser qualquer coisa: qualquer combinação de palavras e figuras, em qualquer formato que você escolher. Assim, não importa sua definição do que é uma HQ... você está certo!

Você já trabalhou com editoras como CrossGen e Boom! Studios, e atualmente é o editor-chefe da Ardden Entertainment. Como você enxerga a importância de editoras menores para a indústria dos quadrinhos?
DeMatteis:
A Marvel e a DC publicam material excelente, mas, acima de tudo, elas investem em seus universos de super-heróis. A Vertigo é uma parte importante da DC, é claro, mas em termos de lucro, suas revistas não se comparam às de Superman, Batman e Mulher-Maravilha. Então, é natural que o foco dessas empresas seja seus super-heróis. E fazem um trabalho fantástico com eles. Só porque algo vem de uma empresa independente, não há garantias, de forma alguma, de que será diferente ou terá qualidade maior que o material da Marvel ou DC. Mas, no melhor dos casos, as editoras alternativas fazem o que linhas como a Vertigo fazem... só que melhor. Elas encorajam vozes novas, originais. Dão aos autores um lugar onde podem se expressar, seguir suas visões, algo que não poderiam fazer em outro lugar. E isso é uma grande coisa.

É claro que a realidade econômica precisa ser encarada. É por isso que você vê muitas editoras indies – a Ardden inclusive – publicando material licenciado, títulos com nomes com que os leitores são familiares. Títulos que já têm público pronto. Não acho que haja nada de errado com isso, enquanto as revistas licenciadas mantiverem a qualidade. Publicar um título conhecido apenas para lucrar é desperdício de dinheiro do publisher e de tempo do leitor. Penso que uma das razões pelas quais a série Flash Gordon da Ardden foi bem-sucedida é que seu roteirista, Brendan Deneen, realmente usou uma abordagem inovadora na franquia. E ele é passional com isso. Está empolgado em escrever Flash Gordon. Sua paixão se traduz nas páginas. Espero que ele possa fazer o mesmo com todos nossos títulos licenciados.

Falando sobre a Ardden, quais suas ambições e metas, como editor? Se tivesse a chance de mudar a indústria, editoras e mercado, o que faria?
DeMatteis:
Para mim, tudo se resume a uma coisa: contar belas histórias. Contá-las em todos os gêneros. Mirá-las para cada faixa etária. Se algo tem restringido os quadrinhos norte-americanos desde os anos 60, é a obsessão com super-heróis. Fizemos grandes avanços em termos de dar oportunidade a uma gama maior de material, mas penso que ainda temos um longo caminho a percorrer. Especialmente com o material para crianças.

Um dos problemas que enfrentamos é este conceito de “quadrinhos adultos”. Nos anos 70, o slogan da DC era: “DC Comics Não é Só Para Crianças!” Agora, o slogan da indústria inteira poderia muito bem ser: “Quadrinhos não são para criança nenhuma!” É uma grande coisa: os gibis encontraram uma nova aceitação entre o público adulto, e com todo o direito. Mas o único meio de cultivarmos um novo público é mirando este material para jovens leitores, trazendo-os conosco conforme envelhecem. E, é claro, os melhores títulos infantis também são atraentes para adultos. Assim, você não se limita a um mercado. Você de fato está expandindo o seu mercado.

A outra onda a explorar é a onda digital. Não há como detê-la. Precisamos aprender a tirar vantagem das novas tecnologias e nos adaptarmos a elas. Se isso significar que, um dia, todas as HQs serão lidas digitalmente, então que seja. Minha impressão é que o meio não importa, e sim as histórias. Entreter as pessoas, provocá-las, fazê-las pensar. É isso que realmente importa.

Tudo isso passa pela minha cabeça conforme trabalhamos na Ardden Entertainment. Tudo isso precisa ser pensado conforme a companhia cresce. Mas iremos devagar. Lançamos a nova Flash Gordon, com críticas maravilhosas e ótimas vendas, e temos vários projetos novos – inclusive um que co-escreverei com meu amigo Derek Webster – a serem anunciados em breve. Mas não estamos tentando inundar o mercado ou competir com a Marvel ou DC. Só queremos publicar uma linha de obras de qualidade, da qual possamos nos orgulhar.

Agora, falando sobre gosto pessoal, qual seu melhor trabalho em parceria? Com qual artista você gostou mais de trabalhar? E há algum profissional ou personagem com que gostaria de trabalhar, mas ainda não teve chance?
DeMatteis:
Tive tanta sorte em trabalhar com tantos artistas e colegas escritores extraordinariamente talentosos, que é impossível apontar somente um, ou mesmo um grupo. Mas em matéria de colaboração que funcionou magicamente, os nomes que me vêm à cabeça de imediato são Keith Giffen, Mike Ploog, Mark Badger, Jon J. Muth, Glenn Barr e Sal Buscema. Mas então me lembro de Shawn McManus, Liam Sharp, Mike Zeck, Kevin Maguire e Kent Williams e... Bom, poderia ficar nisso o dia inteiro. Fui realmente abençoado com um grupo excepcional de colaboradores, e tenho certeza de que deixei de fora pelo menos uma dúzia de gente digna de menção!

Em sua opinião, qual seu melhor trabalho?
DeMatteis:
Meus favoritos costumam ser os mais pessoais, como Moonshadow, Brooklyn Dreams, Seekers Into the Mystery e Abadazad. Dentre minhas histórias de super-heróis, meu trabalho no Homem-Aranha – especialmente Spectacular Spider-Man #200 e Amazing Spider-Man #400 – estão no topo da lista, embora o meu favorito de todos os tempos, entre as histórias que escrevi de super-heróis, seja Batman: Going Sane. E adorei praticamente tudo que fiz com Giffen... com Hero Squared no topo da lista.

Você tem algum novo projeto pessoal nos quadrinhos que gostaria de mencionar?
DeMatteis:
Falando em quadrinhos, tenho um projeto passional – um no qual venho trabalhando, de uma maneira ou de outra, por vinte e cinco anos! – intitulado The Life and Times of Savior 28, que sairá ano que vem pela IDW. A arte é de Mike Cavallaro, um artista maravilhoso com quem desejo trabalhar faz alguns anos. Savior 28 é uma minissérie em seis edições lidando com a violência nos quadrinhos de super-heróis, na cultura pop em geral e, em último caso, em nosso mundo – tudo isso em cima de um cenário que abarca setenta anos de história norte-americana, desde Franklin Delano Roosevelt a Obama.

Como mencionei antes, também tenho um novo título pela Ardden, que estou co-escrevendo com um fantástico roteirista novo, Derek Webster. É uma aventura sobrenatural contemporânea, com raízes em um mito ancestral. É tudo que posso dizer por enquanto – e que será lançado em meados de 2009. Derek e eu também estamos trabalhando em uma graphic novel para a Desperado chamada Arms Race. É um projeto grande, que só sairá em 2010. Também venho trabalhando em um romance – provisoriamente chamado Imaginalis – que estou escrevendo para um novo selo da HarperCollins, o The Bowen Press. É uma fantasia para adolescentes e acho que os fãs de Abadazad e Stardust Kid irão apreciar o mundo de Imaginalis. Está previsto para 2010.

DeMatteis, muito obrigado pela entrevista. Alguma mensagem para seus fãs brasileiros?
DeMatteis:
Uma muito simples: Obrigado, do fundo do meu coração, por lerem e apreciarem meu trabalho. Significa muito para mim!

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