MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
16/09/2008
MATÉRIA: A HISTÓRIA DOS QUADRINHOS NO BRASIL - PARTE 1
 
 
The Yellow Kid
 
 
The Katzenjammer Kids: Os Sobrinhos do Capitão
 
 
Zé Caipora, de Ângelo Agostini
 
 
Fac-símile da primeira edição de O Tico-Tico
 
 
Edição Comemorativa de 100 anos de O Tico-Tico
 
 
Seleções Coloridas #1: Disney pela Ebal
 
 
Edição Maravilhosa em Cores
 
 
O Judoka
 



Mídia popular com mais de 100 anos de história, as bandes dessinées, fumetti, mangás, funnies, tebeos, historietas, comics, ou simplesmente, histórias em quadrinhos, ajudaram no Brasil a construir impérios da comunicação, protestar contra o regime militar ou simplesmente divertir várias gerações de crianças e adolescentes.

Breve história do nascimento das HQs
Nos 15 primeiros anos da segunda metade do século XIX, houve um grande desenvolvimento da indústria gráfica (jornais, livros, revistas, etc.). Já havia surgido a caricatura, que passou a ser presença constante em publicações diárias ao redor de todo o mundo. Derivada destes desenhos, nas páginas de jornais e revistas, foi que nasceu a grafia desta nova forma de arte narrativa.

Apesar disso, as precursoras das histórias em quadrinhos não podiam ainda ser chamadas como tal, mas possuíam qualidades “quadrinizantes”, por assim dizer. Foi o caso de Max und Moritz, criada por W. Busch em 1865, que contava as traquinagens de dois garotos e que chegou a ser publicada no Brasil, traduzida por Olavo Bilac, com o nome de Juca e Chico. Também é digno de nota La Famille Fenouillard, de autoria do francês Christophe, publicado em 1889.

Nos Estados Unidos, a precursora seria Little Bears and Tigers, de James Swinnerton, surgida em 1892. Mas as maiores contribuições à estrutura formal da narrativa de uma história em quadrinhos viriam com The Yellow Kid (no Brasil, O Menino Amarelo ou O Moleque Amarelo), de R.F. Outcault, em 1897; e The Katzenjammer Kids (no Brasil, Os Sobrinhos do Capitão), de R. Dirks. A primeira incorporou as falas do personagem principal aos quadros da história, no camisolão usado por ele - em suas antecessoras, as falas apareciam em legendas logo abaixo dos quadros. A segunda foi a pioneira no uso do balão como o conhecemos hoje.

Foi então que, na primeira década do século XX, mais exatamente no ano de 1905, surgiu a primeira HQ propriamente dita, que definiu a linguagem de articulação de signos gráficos, visuais e verbais dos quadrinhos. Tratava-se de Little Nemo in Slumberland, de Winsor McCay. As histórias de uma página contavam os fantásticos e surreais sonhos do garoto Nemo, que sempre acordava no fim de cada aventura.

O surgimento das HQs no Brasil
Nosso país também teve seu precursor na criação de histórias de características quadrinizantes. Foi Ângelo Agostini, cartunista italiano radicado no Brasil. Agostini, autor de desenhos de teor cômico, mas ainda assim de cunho crítico, utilizava-se em suas histórias dos cortes gráficos que viriam a ser um dos elementos determinantes na futura criação das histórias em quadrinhos.

Em 30 de janeiro de 1869 surgia, então, a primeira história em quadrinhos brasileira: era As Aventuras de Nhô Quim. Publicada pela revista Vida Fluminense, do Rio de Janeiro, a história contava, em episódios, as desventuras de um homem simples do interior do Brasil. O primeiro capítulo possuía 20 imagens em páginas duplas e chamava-se “De Minas ao Rio de Janeiro”.

Agostini produziu, sem periodicidade certa, nove capítulos das aventuras de Nhô Quim. Dois anos depois da publicação de seu nono episódio, a história foi continuada pelo cartunista Cândido Aragonês de Faria, que publicou mais cinco capítulos do personagem. Em 1883, o Agostini deu início à sua segunda série, As Aventuras de Zé Caipora, publicada na Revista Illustrada.

Recentemente, o Senado Federal lançou um álbum de luxo, organizado pelo jornalista Athos Eichler Cardoso, que republica as aventuras dos dois personagens e mostra às novas gerações o traço afiado de Agostini, e como ele conseguiu, por meio deles, captar a vida política e do povo de sua época.

E no mesmo ano da publicação de Little Nemo nos Estados Unidos, surge no Brasil a revista O Tico-Tico. Idealizada por Manuel Bonfim e Renato de Castro, a revista possuía uma tiragem inicial de 27 mil exemplares e foi publicada até o fim dos anos 1950. No começo, a maioria do material de suas páginas era franco-americano, que foi sendo substituído ao longo do tempo por trabalhos de artistas nacionais, quadrinizados ou não. Passaram por suas páginas artistas como Alfredo Storni, Cícero Valladares, Nino Borges e J. Carlos, que contribuíram para que a revista trouxesse sempre informações históricas, folclóricas e geográficas de nosso país.

A revista, ainda assim, publicava material estrangeiro como As Aventuras do Gato Maluco (de Herriman), As Aventuras do Ratinho Curioso (na verdade, Mickey Mouse), As Aventuras do Gato Félix e As Aventuras de Chiquita (a francesa Bécassine). Mas o personagem símbolo de O Tico-Tico viria a ser Chiquinho, que na verdade era o personagem norte-americano Buster Brown, lançado por R.F. Outcault em 1902. Mas se os desenhos eram decalcados diretamente do suplemento original onde era publicado, o cartunista Luís Gomes Loureiro procurava adaptar as histórias à realidade brasileira, o que culminou na inclusão de um personagem inexistente na série americana: o negro Benjamim.

Em 2005, comemorando o centenário de O Tico-Tico, a editora Opera Graphica lançou um livro com artigos sobre a revista, assinados por diversos especialistas em histórias em quadrinhos, como Álvaro de Moya e Sonia M. Bibe Luyten.

O Suplemento Juvenil e a Ebal de Adolfo Aizen
Em uma viagem aos Estados Unidos, o jornalista Adolfo Aizen percebeu o potencial dos suplementos de jornais onde eram publicadas as mais famosas histórias em quadrinhos da época. Determinado a também entrar no negócio, Aizen, em sua volta ao Brasil, acabou por lançar o Suplemento Infantil, sendo rebatizado mais tarde para Suplemento Juvenil. Inicialmente ligado ao jornal A Nação, o encarte não foi o pioneiro na publicação de quadrinhos norte-americanos em suas páginas, como vimos antes, mas foi quem primeiro o fez de forma massiva.

Para editar seu Suplemento e poder vendê-lo aos jornais (e depois o distribuindo de forma independente), Aizen fundou o Grande Consórcio de Suplementos Nacionais, que tinha um porte muito menor do que seu nome poderia sugerir. Mesmo publicando, em escala menor, histórias de quadrinistas brasileiros como Carlos A. Thiré, Fernando Dias da Silva e Monteiro Filho, eram séries do porte de Flash Gordon, Buck Rogers, Jim das Selvas, Tarzan, Mandrake, Dick Tracy, Terry e os Piratas e Príncipe Valente que dominavam as páginas do Suplemento Juvenil.

As vendas do Suplemento Juvenil chegaram a cem mil exemplares, mas uma série de decisões editoriais equivocadas de Aizen acabaram por encerrar a publicação, bem como o Grande Consórcio. Mas o jornalista não se deu por vencido e, em 1945, fundou a Editora Brasil-América. Após o lançamento de alguns livros infantis ilustrados, a editora lançou sua primeira revista no ano seguinte. Era Seleções Coloridas, que durou apenas 17 números e trazia histórias dos personagens de Walt Disney, incluindo algumas escritas e desenhadas por Carl Barks (criador do Tio Patinhas, entre outros personagens Disney, e um dos maiores artistas de quadrinhos de todos os tempos), além de vários passatempos.

A primeira revista exclusivamente de quadrinhos da Ebal seria lançada em 1947. O Herói trouxe ao Brasil algumas histórias ainda desconhecidas, como Patrulheiros do Ar, A Amazona dos Cabelos de Fogo e Freddy e Nancy no Circo. Mas o maior lançamento da Ebal até então viria em novembro do mesmo ano, com o lançamento da revista Superman, que seria publicada pela editora ininterruptamente nas quatro décadas seguintes. A revista trazia as aventuras do personagem-título e de outros heróis, entre eles Batman, Joel Ciclone (o Flash original) e Falcão da Noite (nome pelo qual o Gavião Negro foi chamado na época), todos da DC Comics.

Um ano depois, chegava às bancas a Coleção King, em que cada edição trazia as aventuras de um personagem; no primeiro número, foram apresentadas as aventuras do Fantasma. A ele, seguiram-se Mandrake, Flash Gordon, Rádio Patrulha e muitos outros. A editora diversificou seus títulos não apenas na linha de super-heróis, com as revistas solo do Batman e Aquaman, por exemplo. Havia a revista do Zorro (na verdade, Lone Ranger, no original) e a Edição Maravilhosa, que trazia adaptações de clássicos da literatura mundial e, depois de sugestão de Gilberto Freyre, também da brasileira.

Havia também títulos de mistério como Quem Foi?,  e até espaço para um super-herói brasileiro: o Judoka, roteirizado por Eduardo Baron e desenhado por, entre outros, Fernando Ikoma e Floriano Hermeto, que estrelou as edições 7 a 52 da revista de mesmo nome (os seis primeiros números estrelaram o personagem Judô-Master, também conhecido no Brasil como Mestre Judoka, da Charlton Comics).

Ainda na década de 1960, a Ebal passou a publicar também material da Marvel Comics. Capitão América e Homem de Ferro foram os primeiros a darem as caras, seguidos por Homem-Aranha, Quarteto Fantástico, entre outros. A quantidade de títulos trazidos pela Ebal foi simplesmente gigantesca e abarcava diversos gêneros.

Mas a partir do final da década de 1960 um lento declínio começou a se desenhar na editora. Apesar disso, a Ebal ainda primava pela diversidade de títulos e o zelo com o qual eles eram produzidos. Mesmo com o formato de seus títulos mensais reduzido, a editora ainda se dava ao luxo de publicar títulos como Um Homem - Uma Aventura, com material de artistas europeus do porte de Dino Bataglia, Hugo Pratt, Sergio Toppi, Gino D´Antonio, Enric Siò e Giancarlo Alessandrini

Com o declínio nas vendas, os livros infantis passaram a receber uma maior atenção e, no final da década de 1970, poucos quadrinhos ainda podiam ser encontrados com o selo da Ebal. Os personagens da Marvel migraram para outras editoras e o fim da maior editora brasileira de quadrinhos veio definitivamente com a desistência de Aizen em publicar os títulos da DC Comics, a despeito da insistência dos editores norte-americanos para que ele continuasse o trabalho, em 1983.


Na próxima parte: O Globo Juvenil, a estréia da Editora Abril, os magos do quadrinho infantil e muito mais.

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Superman e Homem-Aranha juntos pela primeira vez no Brasil
 
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