MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
27/06/2005
ENTREVISTA: ROBERTO GUEDES
 
 
A Saga dos Super-Heróis Brasileiros
 
 
Os Super-Heróis Brasileiros, por Mozart Couto
 
 
Meteoro x Raio Negro - arte de H. Jordan
 
 
100 Balas - A Seis Passos da Morte
 
 
Meteoro: criação de Roberto Guedes
 
 
Shadow Lady: arte inédita por Renato Guedes
 
 
Guepardo: arte de Marcelo Borba
 
 
Garra Cinzenta, de Renato Silva e Francisco Armond
 



Além de ser editor de quadrinhos da editora Opera Graphica, Roberto Guedes é criador de personagens como Meteoro, Guepardo e Os Protetores, colaborador eventual do HQ Maniacs em diversas matérias e autor do livro A Saga dos Super-Heróis Brasileiros. Veja como foi seu início nos quadrinhos, alguns detalhes sobre seu último livro e de quebra, quais as próximas novidades da Opera Graphica.


HQM: Guedes, como você começou a ler quadrinhos?
Roberto Guedes:
Ainda criança. Enquanto esperava para cortar o cabelo no barbeiro, “devorava” todos os gibis que apareciam pela frente. Depois, quando li uma história do Namor feita por Roy Thomas e Sal Buscema, fiquei “louco” e passei a colecionar quadrinhos.

HQM: Como foi seu início da área de quadrinhos? O que fazia antes?
Guedes:
Comecei produzindo roteiros de HQs para as editoras GED, Ninja e Phenix, todas aqui de São Paulo, a partir de 1988. Como eu tinha um bom emprego de vendedor na área da construção civil, não entrei de cabeça no ramo dos quadrinhos. Levava a coisa como um hobby, daí a razão da minha grande produção no circuito independente. Só comecei a pensar mais seriamente em quadrinhos, ou seja, trabalhar profissionalmente, a partir da segunda metade dos anos 90. Primeiro, com a (quase) editora Fire Comics, depois com o comércio de revistas, propriamente dito. E agora, como editor da Opera Graphica.

HQM: Como você entrou na Opera Graphica?

Guedes: O Franco de Rosa já conhecia meu trabalho nos zines e, após a boa receptividade no fandom com o Gibilândia, pediu para eu falar com o Carlos Mann – que estava precisando de um editor para sua linha de quadrinhos.

HQM: Como foi o trabalho de pesquisa para seus livros? Houve muita coisa que você só veio a conhecer com estas pesquisas?

Guedes: Sem dúvida. A pesquisa é o maior dos aprendizados. É quando, no processo de “peneirar” o que vai ou não entrar no livro, você realmente descobre coisas novas e dá rumo à sua obra. Antes de começar a escrever, você idealiza a coisa de um jeito, de que forma irá abordar o assunto no livro, etc. Daí, você se depara com muitas novidades, detalhes que nem tinha idéia existirem, e acaba mudando todo o rumo do negócio.

HQM: Há algum projeto novo com personagens seus como Meteoro e Os Protetores?
Guedes:
Com o Meteoro, sim. É uma versão modernizada para os antigos mitos do personagem, devidamente adaptada para o novo milênio. Já os Protetores, recebi, recentemente, uma proposta para fazer um especial, mas acho que não vai dar pé. Com o lançamento do livro, algumas pessoas se interessaram pelo Guepardo, pelo Devastador etc. Há muitos projetos e idéias pipocando, mas nada de concreto – com exceção do novo Meteoro.

HQM: Qualquer pessoa que tenha lido alguma história desses personagens, logo nota uma forte influência da Marvel em seus primórdios, nos anos 60. Quais outros trabalhos o influenciaram como criador?
Guedes: Ah, são muitos! Pouca gente lembra (ou sabe), mas meus primeiros trabalhos publicados foram quadrinhos underground. Eu tentava misturar Freak Brothers, MAD e Robert Crumb numa coisa só. Acho que os editores gostavam, pois me encomendaram várias HQs assim. As que não foram aproveitadas, editei num fanzine chamado Tira-Quente, em 1989. Na primeira série do Meteoro – publicada entre 1992 e 1994 – haviam elementos inerentes às tiras de jornais, como as do Zé do Boné. O relacionamento de Vovô e Vovó Marinetti foi muito influenciado pelas brigas do Zé com a Flô. Anos atrás, produzi várias HQs de terror ao estilo das feitas pela Warren, mas que ainda estão inéditas. Quem sabe ainda não publico esse material...

HQM: Podemos esperar mais algum livro?
Guedes: Sim. Estou preparando mais um. Desta vez, sobre a Era de Bronze.

HQM: Em A Saga dos Super-Heróis Brasileiros, você aparece na maioria dos projetos de quadrinhos nacionais a partir da década de 80. Você não acha que isso possa ter feito você descrever o cenário de forma parcial ou ter esquecido de outros cenários do quadrinho nacional?
Bem, antes de tudo, precisamos deixar claro que eu não participei da “maioria dos projetos nacionais”, mas sim, que tive uma participação mais ativa na produção de quadrinhos independentes de super-heróis, lançando vários títulos, personagens e até mesmo, novos desenhistas; e que isso tudo foi relatado apenas em um dos sete capítulos do livro – exatamente aquele que trata da produção independente. É claro que, numa obra em que o autor faz parte do assunto, pode-se incorrer em certa parcialidade, porém, em nenhum momento, deixei de destacar ser aquela, a minha opinião (balanceada com inúmeras citações de outras personalidades do meio). Creio também, que o livro atingiu seu principal propósito: o de ser o mais abrangente possível em relação à todas as facetas de nosso mercado, procurando, através da minha pesquisa, experiência no meio e – por que não dizer (?) – de meu ponto de vista das coisas, levantar questões que façam os interessados refletirem sobre o assunto. A saber: o papel e a importância das editoras, editores, autores, personagens, fanzines, revistas independentes, material licenciado, influência dos personagens estrangeiros (através da publicação deles por algumas de nossas principais editoras), desenhistas agenciados etc., etc..

HQM: A Saga dos Super-Heróis Brasileiros é um tributo aos grandes mestres dos quadrinhos  nacionais de vanguarda, mas não acha que faltou falar mais do personagem mais bem sucedido atualmente, o Gralha ?

Guedes: Bom, falei dele, de seu criador, dos novos autores que produzem suas histórias e até por onde ele foi publicado. Está tudo no capítulo 7, que trata do atual cenário editorial brasileiro. Acho que foi o suficiente, sei lá...

HQM: O pessoal da Trama (atual Talismã), que lançou títulos como Godless e UFO Team, também foi ignorado. Seria por falta de qualidade, já que são frutos da era Image e seguiam bem esse estilo?
Guedes:
Você acha que são títulos de baixa qualidade? Eu não! Confesso que o Ufo Team foi comentado apenas de passagem, mas isso se deu apenas por uma questão de prioridade. Em minha análise, o Joe Prado é mais importante no cenário editorial por seu trabalho de supervisor dos artistas que desenham para o exterior que como desenhista da revista Ufo Team. Quanto ao Godless, eu realmente “comi bola”. Era para entrar na seção “Galeria de Capas”, mas por algum motivo qualquer – que não lembro agora –, acabou ficando de fora. Prometo incluir informações sobre esse título numa futura reimpressão do livro.

HQM: Qual o maior e mais simbólico herói dos quadrinhos brasileiros na sua opinião?

Guedes: Hum... acho que são dois: Raio Negro, por causa de seu criador; e Judoka, por causa de sua editora. Gedeone Malagola e a EBAL – de Adolfo Aizen – foram muito importantes dentro do cenário editorial brasileiro.

HQM: Você realmente curtia o Golden Guitar? Poderia nos falar mais dele?
Guedes: Eu só conheci o Golden Guitar há alguns anos. Ele nunca fez parte de meus preferidos. Sinceramente, meu personagem brasileiro mais querido é o Chet – que nem super-herói é, mas pela importância histórica de seus autores e da editora que o publicou (a Vecchi), senti-me obrigado a dedicar-lhe algumas linhas no livro.

HQM: Muitos autores nacionais criam seus próprios personagens e querem cuidar de todos os aspectos da história, deixando de fazer parcerias e dividir tarefas como diálogos/roteiro/arte/arte-final/edição etc.. Você acha isso uma vantagem ou não?
Guedes: Depende do talento e do recurso técnico de cada um. É difícil analisar “genericamente”, vamos dizer assim. Se você conversar com o Primaggio Mantovi, ele vai te explicar como funcionava o estúdio de produção Disney dentro da Editora Abril. Ele não devia nada aos estúdios americanos e italianos porque os caras eram profissionais gabaritados e cada um cumpria sua função muito bem! Outras editoras, publicavam (e publicam) muito material de “gaveta”. Sai mais barato – por vezes, até de graça – e fica tudo muito mais cômodo. Infelizmente, muitas vezes, essa “preguiça editorial” se reflete em vendas pífias. Mas vou falar por mim: trabalhei com vários desenhistas e arte-finalistas com características diferentes e, na maioria das vezes, o entrosamento foi legal. É questão de cada parte entender e respeitar as qualidades e os limites da outra, e saber tirar o maior proveito possível disso. Muitos leitores, ainda hoje, comentam comigo que preferiam a arte do Marcelo Borba à do Reginaldo Borges em minhas HQs. É óbvio, pois o Borba é um ilustrador profissional que vive de sua arte (no ramo industrial), enquanto o Borges fazia aquilo apenas por curtição e amor aos quadrinhos. Todavia, todo mundo sempre elogiou a energia que o Borges conseguia passar nas histórias. Eu costumava “rafear” as páginas para o Borges. Mostrava, graficamente, como queria a cena. É como eu percebia que a coisa ia funcionar. Se passasse apenas por escrito – como faço com outros desenhistas – creio que o resultado final não seria tão bom. E o Borges nunca esquentou com isso, na verdade, preferia assim.

HQM: Existe algum roteirista profissional (brasileiro) que você admira? Roteirista que aceite criar roteiros para qualquer personagem que seja e não, tão somente, suas próprias criações?
Guedes:
O Arthur Garcia é um artista completo. Ele desenha e escreve vários quadrinhos, desde os institucionais, licenciados e até seus próprios personagens, e nos mais variados estilos. Admiro muito o trabalho dele. Há outros assim também, como o Alexandre Nagado e o Marcelo Cassaro, que estão na estrada há anos. Não os conheço pessoalmente, mas sei que são profissionais de muita competência. O problema, é que estamos passando por uma maré muito ruim de produção nacional. Não há quase nada nas bancas, ainda mais, com o gênero super-herói.

HQM: Em A Saga do Super-Heróis Brasileiros é citado uma das primeiras tentativas de quadrinho nacional no estilo mangá, ocorrida no final dos anos 70. Realmente é raro ver tais revistas serem citadas, pois muita gente sequer lembra (como o Ultraboy, por exemplo). Mas, lamentavelmente, são apenas citados. É difícil encontrar informações sobre tais revistas?

Guedes: Puxa vida! Falei, e muito, do Minami Keize e da trajetória da Edrel no livro. O Minami foi o grande precursor dos mangás no Brasil. Quanto ao Ultraboy, ele faz parte da história da Grafipar – editora que se notabilizou não apenas pela profusão do quadrinho erótico, mas sim, por sua postura editorial e profissional. O Ultraboy foi publicado na única edição que saiu de Robô Gigante. Não havia muito o que falar, entrou como registro histórico. E olha que obtive informações in loco com seu criador, o Franco de Rosa. Caso interesse a alguém, fiz uma matéria exclusiva sobre esse gibi numa edição da revista Desenhe e Publique Mangá, da Escala. Só não lembro em que número foi...

HQM: Shadow Lady tem alguma chance de ser publicada, ainda?
Guedes: Já perguntei isso pro Franco, o roteirista da história. Estamos sem previsão de lançamento. Vi algumas páginas do Colonnese, e, realmente estavam bem legais! Duas curiosidades: o Franco não tinha visto a capa pintada do Renato Guedes até bater o olho em meu livro. Ele adorou! Já o Renato, fez a capa a partir de um rafe bem tosco que fiz pra ele.

HQM: Sendo agora, editor da Opera Graphica, uma das únicas editoras que publica material nacional, chega muito material de qualidade até você? Se sim, como ex-fanzineiro, qual sua reação ao ver bons artistas no anonimato?
Guedes: Recebo, com certa freqüência, artes e sinopses via e-mails e em envelopes, e fico bem chateado por não ter como viabilizar algumas coisas. O fato, é que não depende só de mim. O que recomendo aos interessados, é que enviem sua proposta (seu material), já completo (com roteiro, arte e nanquim) e que estejam dispostos a ouvir críticas e contra-ofertas. Ah, e nada de “Ex-fanzineiro”, por favor! “Fanzineiro em animação suspensa” é o termo mais adequado. Depois de ver que o Roy Thomas – um cara que admiro pacas – voltou a fazer seu zine Alter Ego, quando ele podia estar tranqüilo curtindo sua aposentadoria, chego a ter vergonha de produzir tão pouco. Tá na hora de mudar esse cenário...

HQM: E por falar na Opera Graphica, quais as próximas novidades da editora? A Opera tem tido poucos lançamentos, inclusive de material da DC Comics. O que poderá vir por aí??
Guedes: O Franco e o Carlos estão em negociação para fechar alguns títulos - a maioria, da linha Vertigo. Há alguns clássicos, como o Ás Inimigo do Joe Kubert, também. Mas prefiro só te passar a relação, quando tudo estiver certinho. Tudo bem?

HQM: Quando será lançada a primeira edição encadernada de 100 Balas pela Opera?

Guedes: Pelo que me passaram, entre julho e agosto, no máximo.

HQM: Há algum tempo, foi anunciado que a Opera iria lançar a Bizarro Comics. Essa edição ainda está nos planos? E o crossover Azrael/Ash? Ainda vai sair?
Guedes:
A Bizarro já está pronta. Só falta ir pra gráfica. Os leitores vão se surpreender com o capricho gráfico. Será uma de nossas edições mais bonitas. Infelizmente, Azrael/Ash parece que não vai mais sair. Uma pena, já que o especial já havia sido traduzido e montado. É por isso que não gosto de adiantar nada sem ter certeza das coisas. 

HQM: Na área de álbuns nacionais, alguma novidade?
Guedes:
Sim, um especial com todas as HQs de samurais já feitas pelo Shimamoto, desde os anos 50 até o presente. 
 
HQM: Fora da DC, A Opera tem intenção de publicar material de outras editoras?

Guedes: Vamos lançar um personagem "bárbaro" que os brasileiros adoram e que lá fora saiu pela Dark Horse. Mas não é o Conan, não!

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Raio Negro: criação de Gedeone Malagola
Encapuzado - arte de Aluísio de Souza
 


 

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