MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
06/10/2004
MATÉRIA: WARREN - O MELHOR TERROR DO MUNDO!
 
 
Capa de Creepy #1, que estreou no inverno de 1964
 
 
Creepy #15 - ilustração de capa por Frank Frazetta
 
 
Shock #2 pela RGE, atual Editora Globo
 
 
Kripta - a Creepy brasileira
 
 
Creepy #125 - edição especial de Natal
 
 
Eerie #31 - capa de Richard Corben
 
 
Spirit na Warren - capa da edição #3 de 1974
 
 
Vampirella - capa da edição #21 de 1972
 


Você já ouviu falar de Jim Warren? Não? Ora, ele foi um dos mais importantes editores americanos de quadrinhos de todos os tempos! Através de suas revistas, Creepy, Eerie e Vampirella – lançadas nos turbulentos anos 1960, e que aqui no Brasil, repercutiram na década seguinte nas páginas das aclamadas Kripta e Shock – Warren influenciou todo um mercado voltado para as revistas de terror. Adiante, um pouco dessa história... :: MONSTRINHOS FAMOSOS Jim Warren foi uma espécie de azarão do mercado de quadrinhos norte-americano durante os anos 1960 e 1970, “correndo por fora” com a sua Warren Publishing quando, até certo ponto, incomodou as grandes Marvel e DC. E acredite... enquanto teve “pique”, foi insuperável em sua área de atuação: os quadrinhos de terror. Ninguém conhecia Jim Warren lá pelos idos de 1964, mas todo mundo achava que o sujeito era maluco ou coisa que o valha. O mancebo foi corajoso o suficiente para lançar no mercado de quadrinhos uma revista de terror, já que, desde a “inquisição” do psiquiatra sovina Fredic Wertham na década anterior – com seu livro Sedução do Inocente –, a temática era evitada por todos os editores – que inclusive, curvavam-se ante o código de ética dos quadrinhos. Mas Jim não estava nem aí! Começou a editar uma revista sobre os monstros de filmes de terror, com fotos e artigos sobre Bela Lugosi, Frankenstein e lobisomens afins. Certa feita, publicou nas páginas do magazine Famous Monsters of Filmland (Monstros Famosos do Cinema) uma HQ de terror, que passou despercebida pela censura (código), mas não dos fãs. Jim percebeu que os “olhos de águia” do código não caíam em cima de publicações em formato magazine (20,5 x 27,5 cm), pois a idéia era que, tais formatos, destinavam-se apenas às revistas para adultos. Daí, decidiu se aventurar no mercado de quadrinhos de horror, já que não pretendia bater de frente com a estabelecida DC Comics e nem com a (então) emergente Marvel, no segmento de super-heróis. E foi assim que, no inverno de 1964, Jim lançou sua primeira revista em quadrinhos intitulada Creepy, algo como “assustador”, com capa do experiente Jack Davis – que fizera fama nos anos 1950 na editora EC Comics. Embora ele tenha “suavizado” na capa ao dar, até certo ponto, um ar cômico (talvez, para despistar o verdadeiro propósito da revista), em suas páginas encontravam-se as primeiras e genuínas histórias de terror produzidas na América depois de quase uma década. Apesar de um iniciante na área de HQs, Jim atuava como um “grande”. Pagava seus artistas (desenhistas) muito bem, mas também os escolhia “a dedo”. Velhos conhecidos como Joe Orlando (que bolou todas as histórias da primeira edição de Creepy), Steve Dikto, Gene Colan, Frank Frazetta e Reed Crandall deixaram suas marcas nas páginas de Creepy e Eerie (a revista “irmã” que veio no rastro do sucesso, em setembro de 1965). Como curiosidade: em Creepy nº 1 foi publicada àquela que é considerada pelos especialistas americanos, a última história em quadrinhos de Frazetta: “Werewolf”! A partir daí, o artista cuidaria apenas das capas. Além dos ótimos desenhos, ambas as revistas contavam com o talento do escritor Archie Goodwin – autor da maioria das histórias e que logo seria promovido a editor. Muita gente boa foi apresentada pela primeira vez aos leitores nas páginas de quadrinhos da Warren e outros, apenas sedimentaram sua fama através delas: Neal Adams, Richard Corben, Berni Wrightson e Bruce Jones (este, reverenciado pelos leitores na nova fase do Hulk), apenas para citar alguns. :: O CASO EISNER Até mesmo Will Eisner publicou seu famoso herói Spirit, pela Warren. O quadrinhista foi trabalhar com essa editora após abrir mão de um convite de Stan Lee, pois temia que a Marvel – ao inserir o Spirit em seu universo de super-heróis, acabasse por descaracterizá-lo. Se formos levar em consideração o que a Marvel fez com personagens licenciados como Conan, Sonja, Doc Savage e Tarzan, podemos concluir que a preocupação de Eisner era infundada. Mas Eisner preferiu apostar numa maior liberdade editorial que teria na Warren – apesar de, certa feita, ter invadido a sala de Jim fulo da vida por não concordar com uma capa que o artista Sanjulian havia feito a pedido do editor. Jim acabou não utilizando a capa, mas durante um certo período, o relacionamento entre os dois ficou abalado. A Spirit Magazine durou 41 edições (entre 1976 e 1983). A maior parte do material apresentado era reprise, entremeado com entrevistas e artigos. :: INVASÃO ESPANHOLA Mesmo com todos esses colaboradores de alto nível e com a boa aceitação do público leitor, não era fácil para o Jim “emparelhar” com as grandes, em principal, a Marvel – que também começou a entrar na onda de magazines (inclusive de terror), oferecendo maiores benefícios aos seus freelancer. Com a ajuda do talentoso editor/roteirista Bill Dubay, Jim entrou em contato com um grupo de artistas espanhóis que viriam a produzir algumas das mais sensacionais histórias de ficção científica, suspense e terror dos anos 1970 e porque não, de todos os tempos. Entre os mais renomados podemos citar Esteban Maroto que, com seu traço fino e elegante, introduziu Dax, o Guerreiro e todo um universo mítico, rico em fantasia –, e José Ortiz que desenhou quase todo tipo de histórias para a Warren, mas que ficou eternizado pela belíssima saga “O Apocalipse”. :: AS GATINHAS DO JIM Está na cara que Jim idealizou, tanto o Tio Creepy quanto o Primo Eerie, baseando-se nos “apresentadores” das antigas revistas de horror da EC. Lembram-se do Guardião da Câmara? No entanto, quando decidiu criar mais um título de terror, pediu ao editor da Famous Monsters, Forrey Ackerman, que inventasse uma mulher-vampiro, mas que ela não fosse apenas uma personagem que aparecesse no princípio e fim das histórias, mas sim, que fosse a protagonista delas. Com uma roupa concebida por Trina Robbins (que a detalhou por telefone ao sensacional Frank Frazetta), Vampirella estreou em setembro de 1969, e transformou-se num sucesso instantâneo. Adiante, outros viriam a trabalhar no título, enriquecendo deveras, seus mitos e conceitos – casos de Steve Englehart e Gonzalo Mayo. Outra beldade que se destacou na Warren não tem nada a ver com as páginas impressas, mas sim, com a redação da editora: Louise Jones. A moça foi uma das editoras prediletas dos leitores da Warren e não podemos ser maldosos em afirmar que isso era devido a seu rostinho angelical. Jones era muito capaz, e provou isso de vez na Marvel e DC. Duas curiosidades: Louise, hoje atende como “Sra. Simonson” (esposa do grande desenhista Walt Simonson) e serviu de modelo para Berni Wrightson na capa de House of Secrets nº 92, que apresentou a primeira aventura do Monstro do Pântano. :: O FIM Por uma grande infelicidade, Jim Warren começou a apresentar sérios problemas de saúde e passou a ficar distante dos negócios. Talvez por isso, não pôde evitar as constantes discussões entre Goodwin e Dubay, que acarretou com a saída de ambos. Louise tentou segurar a barra, mas sem os olhos do dono, não há “gado” que engorde. Em meados de 1983 a Warren faliu, o que deixou seus fãs desconsolados. Jim sumiu do cenário, e só voltou em 1993, já restabelecido e pronto para retomar suas histórias em uma batalha legal junto à corte de justiça dos Estados Unidos contra a editora Harris Comics – atual detentora dos direitos das histórias, inclusive, de Vampirella. Em 1992, a Harris tentou resgatar a popularidade de Creepy, ao editar uma minissérie de quatro edições em prestige format (formato americano com lombada quadrada). Mas as histórias eram tão pífias que a iniciativa não empolgou ninguém. Tiveram mais sorte, entretanto, com reprises de material antigo, da época da Warren. :: NO BRASIL Na opinião deste que vos escreve, Kripta foi, sem dúvida alguma, a melhor revista de terror publicada no Brasil. Durou 5 anos (1976 – 1981), com 60 edições lançadas mais uma série de almanaques e especiais. Seu slogan “Com Kripta, qualquer dia é sexta-feira, qualquer hora é meia-noite!” é, no mínimo, legendário! Kripta misturava material de Creepy e Eerie, e as séries que apresentou: “Papai e o Pi”, “A Noite dos Dementes”, “Rook”, “Spektro”, “Dax o Guerreiro”, “Viajantes do Horizonte”, “A Doença Lunar” etc., tornaram-se memoráveis! Alguns de seus artistas, como: Jose Ortiz, Esteban Maroto, Paul Neary, Richard Corben, Jim Starlin, Angelo Torres e mestres como Steve Ditko e John Severin influenciaram muitos desenhistas brasileiros. Dois profissionais da RGE, Walmir Amaral e José Evaldo foram responsáveis por belas capas pintadas, na verdade, releituras das originais americanas. O sucesso de Kripta gerou outra revista: Shock (nome retirado de um seriado televisivo famoso à época). Durou apenas 5 edições, talvez pelo fato do leitor brasileiro não ter poder aquisitivo para consumir duas publicações que, em essência, eram iguais. Já a editora Noblet, lançou 10 números em formato magazine (igual a publicação americana) de Vampirella – que por sinal, se trata de um material muito difícil de encontrar hoje em dia. Como adenda, essas edições da Noblet traziam contos de Rubens Lucchetti (o mesmo roteirista dos filmes de Zé do Caixão), ilustrados por Júlio Shimamoto. No final dos anos 1990 outras editoras brasileiras lançaram uma nova – e mais sanguinária – fase de Vampirella feita pela Harris. Mas como não houve continuidade, podemos concluir que essa versão da personagem não deve ter caído no agrado geral... Roberto Guedes * (Autor do livro Quando Surgem os Super-Heróis) *Matéria publicada originalmente na revista independente Quartel-General nº 1 (agosto de 2000), revisada, ampliada e autorizada pelo próprio autor ao HQ Maniacs.
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Edição especial de Creepy pela Harris Comics
 
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