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16/08/2004
 
MATÉRIA: O INCRÍVEL IMPÉRIO DA CHARLTON COMICS
Por : Roberto Guedes
 
 
 
 
O Besouro Azul
 
 
Capitão Átomo
 
 
Peter Cannon - Thunderbolt
 
 
O Pacificador
 
 
 
 
 
 
 


A Charlton foi fundada em meados da década de 1930, por um imigrante italiano chamado John Santangelo. Antes mesmo de batizar sua editora, ainda mambembe, ele já produzia e distribuía revistinhas com letras de músicas a vários pontos, como drogarias, tabacarias e pequenas lojas. Mas como não tinha licença para tal acabou atrás das grades. Ficou por lá um ano e acabou conhecendo Ed Levy, um advogado do Conselho da Prefeitura de Waterbury que foi preso devido a seu envolvimento num escândalo com faturamentos falsos. Os dois se associaram e em homenagem aos seus pequenos filhos, que por coincidência se chamavam “Charles”, fundaram a Charlton.

Após regularizarem a situação dos royalties, a Charlton lançou o magazine Hit Pareder – que acabou se tornando uma das revistas mais tradicionais do segmento. Com o crescimento da editora, logo a Charlton já contava com sua própria sede gráfica – um diferencial importante ante à concorrência. Santangelo era um visionário com tino comercial e administrativo. Assim, tornou-se seu próprio distribuidor, também. Ed fazia as vezes de editor, e aos poucos, trouxe outros títulos musicais de editoras concorrentes, além de promover a criação de palavras cruzadas para a Charlton.

Entraram de cabeça nos quadrinhos ao comprarem personagens clássicos como Nyoka e Blue Bettle (Besouro Azul). Por volta de 1950, a Charlton já se constituía num pequeno império editorial, com sede e gráfica próprias, localizada em Derby, Connecticut. Nem mesmo um furacão terrível ocorrido em 1955 – que destruiu boa parte da propriedade – conseguiu desanimar Santangelo, que lutou contra as adversidades com muita garra. As máquinas tiveram que rodar madrugada adentro, para compensarem o tempo perdido.

Um novo staff editorial foi formado, além de contratos em bases freelancer serem incentivados, como o caso de Jerry Siegel – criador de Super-Homem – que assumiu vários títulos, como: Mr. Muscles, Zaza the Mystic e Nature Boy (este, desenhado por John Buscema). Em meados da década de 1960, Levy estava empanturrado do ramo editorial e com um simples aperto de mãos, desfez a sociedade com Santangelo. O italiano passou a parte de Levy para seu filho, Charles Santangelo, que ficou até 1968, quando preferiu administrar um posto de gasolina. A vida na editora “sugava” as energias de todos, exceto, do velho Santangelo, o fundador, que continuou tocando o barco, desta vez, com seu filho mais novo. Na época, a Charlton editava nada mais, nada menos, que 52 títulos.

Com o sucesso dos super-heróis Marvel, o editor Dick Giordano foi encarregado de criar uma nova linha de super-heróis para a editora. Surgiu então, a Action Heroes Line (Linha dos Heróis de Ação). Entre as estrelas, figurava o Capitão Átomo (antigo personagem da casa). Após uma tímida reformulação do Besouro Azul feita pelo roteirista Joe Gill e pelo desenhista Bill Fraccio (em 1964), Steve Ditko reinventou o personagem (em 1966), deixando-o com um “Q” de Homem-Aranha. O desenhista também reformulou o Capitão Átomo, reduzindo-lhe os poderes e, por conseguinte, deixando-o mais humano.

Mas sua mais importante contribuição para a Charlton – se não comercial, ao menos filosoficamente falando – foi, sem dúvida alguma, o Questão (1967), onde procurou exprimir suas idéias baseadas na filosofia do Objetivismo, da escritora russa, Ayn Rand. Mas nem só de Ditko vivia a Charlton. Era o caso de Peter Cannon – Thunderbolt, de Pete Morisi, e Peacemaker (Pacificador) – o contraditório herói criado por Joe Gill (texto) e Pat Boyette (arte), em 1967. O Pacificador queria promover a paz mundial a todo custo... nem que tivesse de lutar para alcançar tal intento. Já o ilustrador Jim Aparo, desenhou memoráveis histórias do Fantasma – lendário herói das tiras de jornais criado em 1936, por Lee Falk. Para muitos colecionadores, as histórias desse período, são as melhores já produzidas para o herói, no formato de comic book.

Quando Giordano recebeu convite da DC Comics, o referido editor “levou” junto com ele, Aparo e os roteiristas Steve Skeates e Denny O’Neil, que então, assinava as histórias de seu herói Wander, como “Sergius O’ Shaugnessy”. Frank Mclaughin criou o Judomaster – que aqui no Brasil foi publicado na revista O Judoka, da Ebal (Editora Brasil-América, do pioneiro Adolfo Aizen). Daí, o surgimento de um outro herói, chamado Judoka, inteiramente produzido por artistas brasileiros, que tomou o lugar de Judomaster na revista. A Ebal também lançou o magazine Kung Fu, inspirado na publicação The Deadly Hands of Kung Fu da Marvel, que trazia matérias e fotos de filmes de artes marciais, além de quadrinhos de Shang Chi (Mestre do Kung Fu) e Filhos do Tigre.

Com a transferência dos personagens Marvel para a Bloch, em 1975, Kung Fu passou a trazer – entre várias apresentações – histórias de Yang, personagem que foi trabalhado por Sanho Kim, Sattler e até um jovem Mike Zeck. Este último desenhista acabou transferindo-se para o título do Shang Chi, no lugar de Paul Gulacy. No final da década, a Bloch lançou um gibi em formatinho e colorido de Yang.

A Charlton sofreu um revés irreparável, quando Larry Flynt quebrou o contrato de distribuição de sua revista masculina Hustler com a Charlton. O editor George Wildman tratou de encomendar ao seu staff – que contava com Joe Gill e Pat Masulli, entre outros – inúmeros gibis de terror. Ao contrário de outras editoras, que trabalhavam mais com artistas e roteiristas freelance, a Charlton tinha desenhistas e roteiristas contratados que trabalhavam numa grande sala cheia de mesas de desenho (parecido com o estúdio Disney que havia na Editora Abril).

Na década de 70, Ditko firmou-se como um de seus principais colaboradores, atuando em títulos como Ghost Manor. Muitas das histórias dessa fase, inclusive, foram publicadas no Brasil pela Vecchi e RGE, em várias revistas, como Spektro e Fetiche. John Byrne desenhou a série sci fi Domsday + One e Joe Staton, o “super-herói” E-Man. A linha de heróis foi parcialmente recuperada no magazine Charlton Bullseye. O destaque ficou para as histórias de Capitão Átomo, feitas por Ditko e Byrne, e do Questão, pelo mestre Alex Toth.

O estúdio Continuity, do renomado Neal Adams, produziu o magazine p/b The Six Million Dollar Man, – que era baseado na série televisiva, conhecida no Brasil como “Ciborg”. Curiosamente, aqui no Brasil, a Bloch publicou as histórias que saíam no comic book de mesmo nome, com arte de Joe Staton. Enquanto Staton partiria para a DC Comics, John Byrne e Bob Layton, ingressariam na Marvel, onde fariam muito sucesso.

Durante o resto da década de 1970, a Charlton continuou editando mais de quatro dezenas de revistas, muitas delas, com materiais licenciados da Hanna-Barbera, caso dos Flinstones, Scooby Doo e Hong Kong Fu, além de clássicos da King Features como Recruta Zero. Em 1979, John Santangelo faleceu. Ele estava, então, com 80 anos. Charlton Bullseye voltaria em 1981, colorida e em forma de comic book, mas sem o charme e os talentos artísticos de sua predecessora.

Em meados de 1983, Paul Levitz – então vice-presidente da DC – negociou a aquisição da “Action Heroes Line”. Os heróis chegaram a tempo de participar da maxi-série Crise nas Infinitas Terras, onde ficou estabelecido que pertenciam a “Terra 4”. O roteirista britânico Alan Moore, queria usá-los numa série que estava bolando. Giordano negou, pois a DC havia lhe prometido um título semanal com eles, que se chamaria Comics Cavalcade Weekly. Só que a DC preferiu usar a idéia de uma revista semanal em Action Comics, liberando todos os personagens da “Action Heroes Line” para outros autores.

Para piorar, o tal projeto de Moore acabou se constituindo numa das maiores obras em quadrinhos de todos os tempos... Watchmen! Giordano lamentou profundamente o descaso com os personagens que tanto estimava, crendo que se tivessem protagonizado Watchmen, entrariam definitivamente para os anais das HQs mundiais. Somente com o lançamento da minissérie em seis partes The L.A.W. (Living Assault Weapons), de 1999, Bob Layton e Dick Giordano conseguiram resgatar a “dignidade” de seus queridos heróis, embora, aparentemente, The L.A.W. tenha passado desapercebido do grande público. Para variar, ela também permanece inédita no Brasil.

Em 1985, uma editora canadense, a ACG Comics, comprou cerca de 5000 páginas originais de 40 revistas em quadrinhos da Charlton, e desde então vem reprisando esse material em edições preto e branco, em papel jornal de baixa qualidade. Um ano depois, o autor Ted White escreveu uma carta ao The Comics Journal nº 112 acusando a Charlton de envolvimento com a máfia. Seu crescimento repentino e a aglutinação de várias empresas em uma só sempre causaram a desconfiança de todos e, aos poucos, evidências dessa ligação com o submundo foram aparecendo. Em março de 1991, a Charlton – que chegou a publicar 80 títulos diferentes por ano, e que empregou mais de 250 funcionários – foi reduzida a nada, e fechou de vez suas portas. Um ano depois, seu prédio foi demolido, dando lugar a um shopping center.

Era o fim melancólico de um grande império dos quadrinhos americanos...


Roberto Guedes é editor e autor dos livros Quando Surgem os Super-Heróis, A Saga dos Super-Heróis Brasileiros e A Era de Bronze dos Super-Heróis. 
 
 

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