MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
10/06/2014
MATÉRIA: AS POSIÇÕES POLÍTICAS DO CAPITÃO AMÉRICA
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


CAPITÃO AMÉRICA: UM HERÓI CONTRA O SISTEMA?

A postura do Capitão América enfrentando uma força criminosa que se apoderou de setores do governo no seu novo filme – Capitão América 2: O Soldado Invernal – parece ter causado surpresa em muita gente, inclusive críticos e jornalistas de variedades do Brasil.

Para muitos, o Capitão América nunca passou de um super-herói “imperialista”, propaganda do “american way of life”, defensor do status quo e, portanto inimigo daqueles que criticam esse tipo de sociedade.  Assim, ver o herói agindo como uma fora da lei e desobedecendo aos “superiores” gerou espanto entre essa gente.

Mas isso somente para aqueles que nunca leram quadrinhos. Pois para os leitores de gibi, ver o Capitão América enfrentando forças do governo está longe de ser uma novidade. Embora, de fato, ele tenha sido criado em 1941 como um herói patriótico a favor e do lado do governo, inicialmente contra nazistas, nos anos 40, e comunistas nos anos 50, a coisa começou a mudar de figura a partir de seu renascimento, nos anos 60.

O Capitão América havia literalmente ficado na geladeira por anos, até que Stan Lee o trouxe de volta para fazer parte dos Vingadores, em 1964. Logo os jovens leitores da época começaram a gostar daquela “antiquada relíquia da era de ouro dos quadrinhos”, e o herói ganhou histórias próprias, mas como atração secundária da revista Tales of Suspense onde o personagem principal era o arrojado e moderno Homem de Ferro.

Inicialmente Lee o colocou às voltas com inimigos comunistas, como russos, chineses, alemães e vietcongues. Mas não dava certo. Muitos anos mais tarde, o autor reconheceu que ao contrário do que pensava na época, a luta contra os comunistas era algo bem menos simplistas do que uma luta do bem contra o mal. Ele precisava criar adversários que as pessoas realmente não tivessem problema nenhum em odiar, que não tivessem dúvida alguma de que aqueles eram os caras maus.

Assim ele trouxe de volta o Caveira Vermelha, e logo depois, a Hidra, uma organização totalitarista que havia criado para a série Nick Fury: Agente da S.H.I.E.L.D., mas que era grande demais para apenas um gibi. Fundada pelo Barão Strucker, um antigo comandante nazista, a Hidra havia deixado de lado o discurso da intolerância para se dedicar ao que realmente interessava: dominar o mundo.

A Hidra fazia sucesso porque lembrava aquelas organizações mirabolantes enfrentadas por James Bond no cinema ou pelo Agente 86 na TV. Para dar certo, o Capitão América tinha que entrar “no espírito da época”. Qual era o sentido de um herói patriótico e alinhado com o sistema na América dos anos 60 em que jovens protestavam contra a Guerra do Vietnã e negros lutavam por seus direitos civis?

Inicialmente, o Capitão América havia ganhado como parceiro um jovem surgido nas histórias do Hulk, com grande participação nas primeiras histórias dos Vingadores, chamado Rick Jones. Ele seria o novo Bucky, vestindo roupa similar. Mas a era dos sidekicks parecia ter acabado, até o Batman estava se livrando do Robin no início dos anos 70. Os adolescentes leitores de gibis não queriam ler sobre moleques bonzinhos puxa-sacos dos adultos. Foi então que Stan resolveu afastar Rick e dar um novo parceiro para o Capitão: Sam Wilson.

Negro, ex-marginal, Wilson representaria justamente os anseios de uma época em que o debate sobre os direitos das minorias estavam em alta. O Capitão o encontra numa ilha de criminosos, onde fica exilado por uns tempos, logo após ter sua identidade trocada com a do Caveira Vermelha. Ele inspira Wilson a ser um homem melhor e lutar pra ajudar as pessoas em vez de somente ser um rebelde sem causa. Com um treinamento de luta corpo a corpo dado pessoalmente pelo Capitão, Wilson se torna o Falcão.

Mais do que um parceiro, a Marvel resolveu promover alto o conceito, a ponto de fazer o novo personagem em pouco tempo até dividir o título da revista, alterado para “Capitão América e Falcão”. Ele não era um coadjuvante, ele era o coprotagonista. Sam morava no Harlem, bairro pobre onde mora grande parte da população negra de Nova Iorque. Além de enfatizar os problemas da comunidade, o gibi também trazia assuntos polêmicos como sobre qual postura as minorias deviam adotar, se de conciliação como proposta por Martin Luther King, ou rebelião, como pregada por Malcolm X.

O pano de fundo político em meio às grandes lutas contra supervilões ganhou ainda mais impacto quando a revista foi assumida por um então jovem escritor esquerdista que seria um dos autores mais populares dos anos 70: Steve Englehart. O ponto alto de sua fase com o Capitão foi uma longa saga onde o herói enfrenta o Império Secreto, uma organização que havia se infiltrado a tal ponto no governo que havia colocado o herói contra o próprio. Mais chocante ainda foi o final da história, onde o Capitão descobre a identidade do misterioso chefe da organização: nada mais, nada menos, que o presidente Richard Nixon (embora isso fique apenas subentendido na trama)!

Os EUA acabavam de viver o escândalo do Watergate, que desnudara os meios escusos do governo em perseguir seus adversários, infringindo inclusive as liberdades civis! Enquanto na vida real, Nixon renunciou para não ser cassado, no Universo Marvel ele se matou ao ser desmascarado pelo Capitão América. O presidente confessa que montou o Império Secreto, pois nem mesmo o cargo político lhe dava o poder absoluto que procurava.

A revelação abala tanto Steve Rogers que ele inclusive decide deixar de ser o Capitão América. Ele se torna outro herói, o Nômade, uma identidade escolhida para representar um herói sem lar. Mas em contato com as pessoas dos Estados Unidos, com a gente comum, Rogers redescobre seus ideais, e chega à conclusão de que o Capitão América é muito mais do que um garoto-propaganda do governo: ele representaria os ideais em que foi fundada a própria América. Assim ele volta a vestir o símbolo, quando os amigos o convencem que o povo continua precisando do Capitão América, ainda mais depois de um momento difícil, como a queda de Nixon. Era uma ficção baseada num debate da vida real, em que os americanos perderam a fé no seu governo e buscavam motivos pra continuar acreditando no seu ideal de país.

Isso seria novamente colocado à prova nos anos 80, quando o governo Reagan foi abalado por escândalos como o tráfego de armas para o Irã e a Nicarágua, e a venda de drogas pela própria CIA para financiar o esquema. Agora o autor era Mark Gruenwald, que de editor da revista passara a roteirista. Vendo que o Capitão era considerado antiquado e ultrapassado pela geração mais jovem, que preferia os heróis mais violentos após o sucesso de séries como Batman: O Cavaleiro das Trevas e Watchmen, que promoveram uma onda de bad guys nos quadrinhos, Gruenwald resolveu satirizar a situação toda substituindo o Capitão América. Ele introduz na revista um personagem chamado Superpatriota, o caçador de glórias chamado John Walker que após ganhar superforça, decide se tornar o novo super-herói patriótico preferido do povo americano, através de ações orquestradas de marketing.

O presidente Reagan cria uma Comissão para Assuntos Super-Humanos no seu governo, para administrar esses recursos para o país. A Comissão promove vários atos escusos em outros gibis da Marvel, como tentar controlar a vida dos Vingadores e perdoar os terroristas da Irmandade dos Mutantes e os transformarem na Força Federal que será usada para caçar os X-Men. Mas o pior se reserva para o Capitão América: eles convocam Steve Rogers e o lembram que sua identidade, seu uniforme e seu escudo foram criados pelo governo dos Estados Unidos. O próprio Projeto Supersoldado que o transformou no que é hoje, foi promovido pelo governo. Logo, ele não pode agir como um agente independente por aí, e deve prestar contas ao governo, seguindo suas ordens.

Após muita reflexão, Rogers decide recusar, pois teme que os políticos o mandem para missões imorais como intervir em outros países e lutar contra minorias que buscam seus direitos dentro dos próprios Estados Unidos. Ele entrega seu escudo e uniforme para a Comissão, dizendo a eles que se aceitasse as condições do governo estaria traindo os ideais pelos quais a América fora fundada. “O Capitão América não representa o governo, o presidente faz isso. O que o Capitão América representa são os ideais de justiça e liberdade em que o país foi fundado”, diz a eles, lhes dando as costas depois.

Os membros da Comissão ficam estupefatos, pois não esperavam essa reação. Eles decidem punir Rogers e o transformar num fora da lei, mas estão mais preocupados em buscar um substituto para o Capitão América, pois o objetivo daquilo tudo era ter o popular herói apoiando o governo. É então que John Walker, o Superpatriota, entra em cena. Ele já queria mesmo roubar o lugar do Capitão, e o governo lhe entrega a oportunidade de bandeja. As ações de marketing continuam, inclusive arrumando um novo parceiro negro pro herói, para pegar bem com as minorias.

Esse herói se revela brutal e impiedoso, como tantos leitores que reclamavam do antiquado Capitão América queriam vê-lo antes. Enquanto isso, Steve Rogers adota outra identidade, resolvendo se chamar apenas Capitão, utilizando um uniforme negro. Junto com seus amigos Falcão, Demo, Andarilha e Jack Monroe, o novo Nômade, Rogers começa a descobrir que há uma conspiração envolvendo a Comissão para Assuntos Super-Humanos. Um misterioso inimigo manipula para que o cada vez mais descontrolado John Walker enfrente Rogers, numa batalha ideológica entre o velho idealista e o jovem reacionário. Steve, que já havia sido derrotado pelo Superpatriota antes, consegue dar a volta por cima, e se mostrar superior em combate. É quando descobre o verdadeiro inimigo: o Caveira Vermelha, que havia sobrevivido a sua suposta morte, e resolvera se infiltrar no governo para tirar aquilo que Rogers mais prezava, sua identidade de Capitão América. Com a trama desmascarada, a Comissão para Assuntos Super-Humanos perde muito do poder e prestígio, e Rogers volta a ser o Capitão América sem problemas.

A próxima história que colocaria Rogers contra o governo mais uma vez, viria pouco menos de dez anos depois, nos anos 90, na saga Homem sem Pátria, escrita por Mark Waid. O Capitão é acusado de traição, logo após se aliar ao Caveira Vermelha para combater uma ameaça muito pior, o próprio Adolf Hitler cuja consciência havia sobrevivido dentro do Cubo Cósmico. Informações confidenciais estão sendo usadas em atos terroristas contra os EUA, e todos desconfiam que o Capitão vazou a informação. Assim, a Casa Branca o destitui mais uma vez do seu uniforme e escudo.

Mas Rogers não desiste de provar a inocência. Mesmo sem poder ser oficialmente o Capitão, ele investiga as ações terroristas, e descobre que são promovidas por Mecanus, um associado do Caveira, que usou suas máquinas para extrair as informações do cérebro do Capitão. Após salvar a vida do presidente, o próprio Bill Clinton devolve o cargo ao Capitão, dizendo que segurar o escudo é como segurar o bastão de Babe Ruth.

11 DE SETEMBRO E A GUERRA CIVIL
O Capitão América havia ficado em baixa durante os anos 90, onde os heróis raivosos predominaram e símbolos patrióticos moralistas pareciam antiquados. Mas o herói voltou a chamar a atenção justamente quando uma onda de patriotismo voltou a inundar os Estados Unidos, após os atentados de 11 de setembro.

A Marvel já planejava relançar o herói antes disso, e contratara o escritor John Ney Rieber e o desenhista John Cassaday para uma nova fase, de tom mais crítico e humanista, destinada a um público mais maduro. O plano de Rieber era que o Capitão questionasse o que significa “justiça, liberdade e o modo de vida americano” nos dias atuais. Foi quando aconteceram os atentados, e isso acabou acarretando uma série de problemas no gibi, pois os editores queriam agora um Capitão mais ativo na luta contra o terrorismo.

Rieber, no entanto não interpretava o Capitão como um simples soldado que cumpre ordens, e trabalhou no conceito de mostrar o terrorismo como fruto de ações polêmicas do próprio governo norte-americano. Um dos questionamentos eram as armas dos terroristas que só poderiam ser de acesso das forças armadas estadunidenses.

Após uma edição em que o Capitão reflete sobre a morte dos civis alemães na Segunda Guerra Mundial, com a destruição da cidade de Dresden, até a “mais pura das guerras” tem a moralidade americana questionada. Foi a gota da água para o editor Joe Quesada, que substituiu Rieber pelo garoto de recados Chuck Austen, mais alinhado ao pensamento político da editora. Logo o gibi voltou para o feijão com arroz tradicional contra o supervilão da vez, e a revista se tornou um fracasso, sendo tempos depois cancelada.

Ironicamente, enquanto isso, fazia sucesso outra versão do Capitão América. A Marvel havia criado um novo universo chamado Ultimate, com “versões reimaginadas e atualizadas” dos seus principais personagens. Enquanto o Capitão América original é um idealista que busca ser voluntário para combater o nazismo, e portanto nunca realmente um soldado de verdade, acostumado a não seguir ordens, o Capitão América Ultimate da série The Ultimates (no Brasil batizada de Os Supremos) é um soldado por natureza, age e atua como um. Ele pensa mais como o homem comum dos anos 40, politicamente limitado, longe do iluminismo moral do Steve Rogers que todos os leitores conheciam até então. O escritor escocês Mark Millar admitiu que essa, na verdade, era uma versão européia do Capitão América, de como os europeus enxergavam o herói. Como muitos brasileiros o enxergam: um imperialista de direita.

Criticado, ele se voltou para o material clássico do herói, que o mostrava mais vezes contra o governo do que a favor do mesmo. Isso culminou com sua proposta para uma história que se passaria no Universo Marvel oficial: Guerra Civil. A ideia dos editores era colocar os heróis uns contra os outros. Caberia a Millar contar essa história, porque eles se dividiram, e mudar totalmente o status quo após o fim desse evento.

Millar acertadamente percebeu que o Homem de Ferro, e não o Capitão América, era o republicano a favor de uma militarização dos super-heróis. Afinal Tony Stark vinha da indústria armamentista, e adotara sua identidade super-heroica criando uma arma. Ele há havia sido secretário da defesa do governo Bush durante um curto arco de histórias e já havia sido cogitado para dirigir a S.H.I.E.L.D. nos anos 60.

Após uma catástrofe em que um combate com jovens heróis e um vilão explosivo causa a morte de centenas de crianças, um projeto de lei de registro de mutantes que existia no congresso norte-americano é alterado, exigindo que todos os superseres revelem suas identidades secretas e trabalhem para o governo, sendo logo aprovado. Homem de Ferro, Senhor Fantástico e Hank Pym resolvem abraçar a causa e convencer os demais heróis a apoiarem a nova lei, a fim de que possam continuar atuando como super-heróis.

Mas quando o Capitão América é instado a perseguir e caçar os heróis que não revelarem suas identidades e continuarem atuando sem as ordens do governo, ele resolve se rebelar. Ele continua não confiando em políticos, e agora lidera os heróis anti-registro que são perseguidos pelas forças pró-registro, lideradas pelo Homem de Ferro. Para o Capitão, o direito de anonimato e de agir contra o crime, fazendo uma “prisão-cidadã” é inviolável. Guerra Civil em muitos aspectos é uma metáfora super-heroica ao debate liberdade versus segurança em que os Estados Unidos viviam - e vive até hoje. Ambos os lados tem suas razões, e ambos os lados são representados como heróis, mas que irão a extremos para defender o que acreditam.

No fim da história, o grupo do Capitão até consegue derrotar as forças do Homem de Ferro, mas ao ver que o povo defende Tony Stark e tenta impedi-lo de continuar batendo no ex-aliado, Rogers chega à conclusão que acabou se tornando um criminoso, e por isso deve se entregar. Ele continua contra o registro, mas lutará contra isso nos tribunais.

No entanto, no caminho para os tribunais, Rogers é baleado e dado como morto. Para o mundo o Capitão América morreu. Mas a suposta morte, orquestrada novamente pelo Caveira Vermelha, fará bem à imagem do herói, pois de criminoso, as pessoas relembrarão quantas vezes ele salvou o mundo e o país, e começarão a entender suas ações. Quando da ocasião do seu retorno, quando a Iniciativa pró-registro acaba desacreditada por conta de ter sido apropriada por um vilão, o ex-Duende Verde, Norman Osborn, o presidente Obama o coloca no cargo de diretor de assuntos super-humanos. E a primeira medida de Rogers, logicamente, é reverter a lei de registro. Ele vencera, afinal.

O PRESENTE
Os EUA vivem uma espécie de “namoro” com o presidente Obama, que apesar de ser duramente criticado por um governo que mais promete do que cumpre suas propostas, é visto como um mal menor frente aos seus mais poderosos adversários que representam uma face muito mais conservadora da política norte-americana.

A América vê Obama como um símbolo de integração racial, a concretização da própria declaração de independência, onde qualquer homem tem os mesmos direitos, independente da sua cor de pele ou orientação religiosa. Por isso, por mais falho que o governo for, ele deve ser protegido.

A Marvel parece comungar dessa ideia e tem preservado Obama tanto quanto pôde. Por enquanto, o Capitão América anda calmo em relação ao governo, apesar de Rogers ter renunciado ao posto de diretor de assuntos super-humanos, e voltando apenas a ser o bom e velho Capitão América de sempre. Até porque a orientação da Disney é que os personagens se pareçam nas revistas tais como nos filmes.

No entanto, depois de pouco mais de sete décadas de existência do Capitão América, não será surpresa se mais uma vez ele e o governo constituído do país se encontrarem em lados opostos, tal como vimos no recente filme. Afinal, Rogers acredita em liberdade, justiça e em direitos iguais para todas as pessoas. Algo que, infelizmente, nem sempre muitos políticos acreditam ou desejam. Assim, o confronto sempre será inevitável.

Veja também:
- Notícias diversas sobre o Capitão América
- Outras matérias e reviews

  facebook


 


 

Seções
HQ Maniacs
Redes Sociais
HQ Maniacs - Todas as marcas e denominações comerciais apresentadas neste site são registradas e/ou de propriedade de seus respectivos titulares e estão sendo usadas somente para divulgação. :: HQ Maniacs - fundado em 19.08.2001 :: Brasil