MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
16/05/2014
MATÉRIA: X-MEN - DIAS DE UM FUTURO ESQUECIDO
 
 
Capa de Uncanny X-Men #141. Arte de Byrne.
 
 
Capa de Uncanny X-Men #142. Arte de Byrne.
 
 
Os X-Men do Futuro. Arte de Byrne.
 
 
Página de abertura de Uncanny X-Men #142. Arte de Byrne.
 
 
A famosa cena do incesto lésbico. Arte de Byrne.
 
 
Cartaz do filme O Exterminador do Futuro.
 
 
Capa do DVD Day of the Daleks.
 
 
Capa de X-Men Annual #14. Arte de Arthur Adams.
 


O verdadeiro fã da Nona Arte sabe que há uma verdade essencial em relação a essa mídia: existem histórias em quadrinhos e existem as “histórias em quadrinhos”. Existem aquelas que lemos despreocupadamente em um ônibus e depois deixamos largadas em algum canto da nossa casa e da nossa memória; por outro lado, existem aquelas que até podemos ler no “busão”, mas que quase imediatamente sabemos que, de alguma forma, são “especiais”. E, se há uma aventura que se enquadra de maneira perfeita dentro desta verdade é Dias de um Futuro Esquecido (Days of Future Past), um dos maiores clássicos de todos os tempos dos X-Men! Vocês já leram essa aventura? Caso a resposta seja positiva, convido-os a literalmente entrar no “túnel do tempo” para retornarmos para o ano de 1980; por outro lado, se você não sabe nada sobre esse memorável conto mutante, venha conosco do mesmo jeito!

:: Em 2013...
Publicada originalmente no final de 1980 nas edições #141 e 142 do gibi The Uncanny X-Men (e no Brasil pela primeira vez em Superaventuras Marvel #45 e 46, em 1986, da Editora Abril; e pela última vez em Marvel - 40 Anos no Brasil, da Editora Panini, em 2007) e concebida pela histórica dupla Chris Claremont (roteiro) e John Byrne (roteiro e arte), a nossa aventura se principia em um ano, digamos assim, estranho: em 2013! Ora, se vocês estão estranhando tal data, devemos lembrar que no início dos anos oitenta 2013 era uma data um tanto quanto distante... Mas deixemos as explicações cronológicas de lado e vamos de fato ao que interessa!

Em um ano de 2013 completamente distópico, a América do Norte está totalmente dominada pelos Sentinelas (Sentinels). Criados em 1965 por Stan Lee e Jack Kirby para o gibi The X-Men #14, os Sentinelas são robôs desenvolvidos pelo cientista Bolívar Trask que, temendo o crescente aumento da população mutante, decidiu fazer uso de suas criações para “conter” e, eventualmente, “eliminar de maneira definitiva” a suposta ameaça representada pelos mutantes.

Os X-Men enfrentaram várias vezes os Sentinelas, e sempre foram vitoriosos, porém eles não contavam com um fato aparentemente não relacionado aos robôs: no ano de 1980, liderados pela mutante Mística (Mystique), um grupo terrorista conhecido como Irmandade de Mutantes (Brotherhood of Evil Mutants) assassinou o senador Robert Kelly, um político que temia o “perigo mutante”.

O assassinato de Kelly desencadeou uma série de eventos que levaram o governo estadunidense a patrocinar a fabricação de novos Sentinelas. Programados com parâmetros demasiadamente abertos, os robôs chegaram à conclusão que a melhor maneira de cumprir os seus objetivos era tomar o poder nos EUA e vizinhanças e, de lambuja, exterminar a maior quantidade possível de heróis e vilões, fossem eles mutantes ou não. No final das contas, em 2013 pouquíssimos mutantes sobreviveram a chacina generalizada executada pelos Sentinelas.

Das dezenas de X-Men que existiam antes da ascensão dos Sentinelas, em 2013 restaram aprisionados em um campo de concentração especializado em mutantes apenas um pequeno e envelhecido grupo, constituído por Magneto, Tempestade (Storm), Colossus, Franklin Richards (o filho do Senhor Fantástico e da Mulher Invisível, do Quarteto Fantástico), Wolverine, Kate Pryde (outrora conhecida como Kitty Pryde) e uma mutante telepata chamada apenas de Rachel. As duas últimas acabam se tornando a chave para a execução de um mirabolante plano que visava derrotar definitivamente a ameaça robótica: fazendo uso de seus poderes telepáticos, Rachel envia a mente da “quarentona” Kate para o corpo da jovem Kitty em 1980, e caberá a ela avisar os X-Men desta época do perigo que representa o assassinato de Robert Kelly.

Daí em diante, a aventura segue dois focos narrativos distintos: em 1980, os “jovens” X-Men atendem aos apelos de Kate Pryde e enfrentam a Irmandade de Mutantes com o objetivo de salvar a vida do Senador Kelly; em 2013 os “velhos” X-Men fogem do campo de concentração e empreendem um ataque suicida à central de comando dos Sentinelas, uma vez que os robôs pretendem expandir seus domínios para além do continente norte-americano. No fim de tudo, a equipe mutante de 1980 consegue derrotar a Irmandade e evitar o assassinato de Kelly, e após isso a mente de Kate Pryde volta para o seu corpo em 2013; por outro lado, no futuro os X-Men remanescentes são mortos pelos Sentinelas e apenas Kate Pryde e Rachel sobrevivem ao ataque suicida. Mas será que presença de Kate Pryde em 1980 de fato mudou o futuro? Esta é a grande questão em aberto que finaliza a história...

:: Os Bastidores
Durante um bom tempo os X-Men foram personagens de segundo escalão dentro do Universo Marvel, porém em meados dos anos setenta o trabalho do escritor Chris Claremont em parceria com o desenhista Dave Cockrum estava fazendo lentamente o público redescobrir o apelo dos mutantes. Tal “redescoberta” atingiu um novo e alto patamar quando em 1978 o artista anglo-canadense John Byrne substituiu Cockrum como desenhista do gibi dos mutantes. Logo de cara Byrne passou a dar inúmeros “pitacos” nos scripts de Claremont e acabou se tornando corroteirista do titulo, e o ápice dessa parceira foi a Saga da Fênix Negra, um conjunto de histórias finalizadas em Uncanny X-Men #137 onde a mutante chamada Jean Grey (mais conhecida como Fênix) desenvolve super-habilidades quase divinas e coloca em risco toda a vida no Universo. O desfecho desta saga é conhecido por todos os fãs: temendo a loucura advinda dos seus poderes, Jean Grey põe fim à própria vida.

Os leitores daquele período achavam que a Saga da Fênix Negra era o suprassumo definitivo, a maior história dos X-Men de todos os tempos, porém alguns meses antes do fim desta importantíssima saga Byrne imaginava uma aventura onde os mutantes enfrentavam aqueles que – na “imodesta” opinião do desenhista – eram os seus maiores inimigos, no caso os Sentinelas.

Tendo as bases da sua história com os Sentinelas já esboçadas, Byrne procurou Claremont, e segundo depoimento dado por ele para o livro Modern Masters Volume Seven: John Byrne (inédito no Brasil) a seguinte conversa foi travada com o escritor: “’Dias de um Futuro Esquecido’ era uma ideia minha. Chris não queria fazer histórias com os Sentinelas. Eu amava os Sentinelas! E Chris me disse: ‘Oh, eu não quero fazer histórias com os Sentinelas! Eles são personagens fracos!’ E eu respondi: ‘Não, eles não são. Você é que escreve eles de maneira fraca! Me deixa fazer uma história com os Sentinelas! (...) Então, eu vim com o roteiro onde os Sentinelas dominam o planeta e matam todo mundo. Deste jeito a história ficou ‘forte’, certo?”.

Com a proposta colocada na mesa e com o apoio da editora Louise Simonson a ideia de Byrne foi desenvolvida, com a seguinte divisão de tarefas: Byrne ficaria encarregado da ação transcorrida em 2013; Claremont cuidaria do trecho da aventura passado em 1980 e do texto final nos diálogos nas duas partes. Depois de publicada, a recepção por parte dos fãs foi a mais calorosa possível, porém o que eles não sabiam é que essa brilhante história marcou o fim de uma era para os mutantes.

Já fazia um tempo que Claremont e Byrne “batiam cabeça” em relação aos rumos que os X-Men deviam tomar, e essas divergências atingiram o seu ápice após a publicação de Dias de Um Futuro Esquecido. E a gota d´água foi o uso de um conceito que de certa forma já vinha sendo testado pela Marvel na série What If... ? (conhecida no Brasil como O que aconteceria se... ?) e nas aventuras do Capitão Britânia publicadas pela divisão inglesa da Casa das Ideias: a “realidade alternativa”.

Para aqueles que não estão familiarizados, segundo os princípios da “realidade alternativa” é impossível algum viajante temporal do presente (ou no caso de Dias, do futuro) voltar no tempo, interferir em algum fato critico no passado e consequentemente alterar o seu presente/futuro; caso isso ocorresse, o presente/futuro continuaria do mesmo jeito que era, e um universo/realidade completamente distinto e sem ligação nenhuma com o período de tempo original do viajante temporal seria criado. Complicado? Sem dúvida. E foi justamente este conceito que deixou Byrne furioso assim que Uncanny X-Men #142 pousou em suas mãos. Originalmente, Byrne havia definido que após conseguir evitar o assassinato de Kelly a mente de Kate Pryde desapareceria do corpo da jovem Kitty e o futuro de onde ela veio seria eliminado, porém Claremont alterou essa premissa, fazendo com que a mente de Kate retornasse para 2013 e “enviasse um beijo” para a sua versão mais jovem, deixando em aberto a possibilidade de ter sido criada a tal da “realidade alternativa”.

Sobre essa mudança no final de Dias, Byrne deu um depoimento contundente em seu website pessoal: “Havia duas coisas que eu queria quando bolei aquilo que se tornou Dias de Um Futuro Esquecido. Acima de tudo, é claro, eu queria fazer uma história do cacete com os Sentinelas. Mas havia algo quase igualmente importante: eu queria que os X-Men tivessem uma vitória definitiva. Eu queria uma história na qual, quando a poeira baixasse, não sobrassem dúvidas de que eles tinham cumprido a sua missão. Eles teriam vencido! (...) A ligação entre Kate e Kitty era contínua, contígua e incorruptível. Quando o passado – o passado de Kate – foi mudado, o futuro de onde ela veio simplesmente desapareceria. Isto foi o que eu bolei, o que eu desenhei e o que eu enviei para a Redação Marvel. Mas quando Chris escreveu o roteiro final, ele incluiu aquilo que imediatamente ficou conhecido no escritório da Marvel como ‘a cena do incesto lésbico’, onde Kate ‘deixa’ o corpo de Kitty e ‘impulsivamente ela dá um beijo em si mesma’. Em outras palavras, ela sobreviveu à alteração da linha temporal! Eu quase explodi. Eu só vi isso depois que a história foi publicada e eu nunca fiquei tão furioso antes em toda a minha vida. (...) Mas o dano estava feito, tanto para a história quanto para a minha atitude em relação à revista e aos personagens. Foi ai que eu comecei a perceber que, por fim, não importava o que eu achava que os X-Men eram, ou como eles deveriam pensar ou agir, porque era aquilo que Chris escrevia que era impresso e era aceito pelos fãs como ‘fato’.”

Esta divergência terminou de uma maneira óbvia: após o lançamento de Uncanny X-Men #143, Byrne abandonou o título e Claremont continuou à frente dele por muitos e muitos anos. Porém, ele ainda teria pelo menos mais um dissabor relacionado à conclusão de Dias: lembram-se de Rachel, a telepata que enviou a mente de Kate Pryde para 1980? Fazendo uso de uma máquina do tempo ela conseguiu fugir de sua realidade e se materializou em nosso presente em 1984 no gibi New Mutants #18 (no Brasil, Incrível Hulk #72, Editora Abril, 1989). Após um período convivendo com os X-Men ela revelou na revista X-Men #188 (no Brasil, X-Men #12, Editora Abril, 1989) ser filha de Jean Grey com Scott Summers, o mutante mais conhecido como Ciclope. Posteriormente, no final de 1985 em X-Men #199 (no Brasil, X-Men #21, Editora Abril, 1990) ela assumiu os poderes e o nome da Fênix.

Byrne não ficou muito contente ao tomar conhecimento desta decisão de Claremont. Ora, na conclusão originalmente concebida para a Saga da Fênix Negra, Jean Grey seria derrotada e sofreria uma espécie de “lobotomia psíquica” que removeria os seus poderes, porém obedecendo ordens do editor-chefe Jim Shooter (que achava que a Fênix deveria ser mais duramente “punida” pelos “crimes” que “cometeu”) eles acabaram matando a heroína. Tal mudança impactou o desenvolvimento de Dias, conforme Byrne explicou em seu website: “Como havia sido bolado por mim, meses antes do final da Saga da Fênix Negra, Rachel deveria ser a filha de Scott e Jean. Após a publicação do final da Saga da Fênix Negra, isso ficou impossível, mas a personagem era importante demais para a trama para ser simplesmente removida dela, então eu a deixei por lá como uma telepata genérica, e presumi que Chris não usaria a conexão dela com Scott e Jean, já que tal conexão não fazia mais sentido. Fui um tolinho...”.

:: Boatos e Inspirações

A despeito das “broncas” de Byrne, Rachel até hoje é uma figura regular dentro das histórias dos mutantes da Marvel, e o mais importante de tudo: após o seu lançamento Dias de um Futuro Esquecido de maneira automática ganhou o status de “clássico” dos quadrinhos americanos. Ora, em 1984 estreou nos cinemas O Exterminador do Futuro (The Terminator), dirigido por James Cameron. Se vocês não estiveram fora do planeta Terra nos últimos trinta anos conhecem a trama do filme: oriundo de um futuro dominado por máquinas sencientes, um robô (interpretado por Arnold Schwarzenegger) retorna no tempo com o objetivo de executar a mãe do futuro líder da resistência humana, evitando assim o nascimento dele.

Não é preciso grande intuição dedutiva para perceber que o roteiro de O Exterminador do Futuro guarda muitas semelhanças com o de Dias de um Futuro Esquecido, e é de conhecimento público que o diretor Cameron é um apaixonado por quadrinhos. Neste caso, não demorou muito para ainda nos anos oitenta alguns fãs mais radicais acharem – ou terem certeza! – que O Exterminador era um plágio de Dias. Apesar de crível, este boato é facilmente desmentido por uma razão muito simples: após o lançamento de O Exterminador, o escritor Harlan Ellison percebeu que o filme era muito parecido com The Soldier (O Soldado) e Demon with a Glass Hand (O Demônio da Mão de Vidro), dois roteiros que ele escreveu para o seriado sessentista de ficção cientifica Quinta Dimensão (The Outer Limits) e que lidavam com soldados futuristas que transportavam suas guerras para outros períodos da História. Após um processo judicial, a contragosto de Cameron os produtores do filme deram uma compensação financeira para Ellison e reconheceram a inspiração na obra do escritor nos créditos da película. Uma pequena curiosidade: uma versão quadrinizada de Demon with a Glass Hand foi lançada pela DC Comics no inicio de 1986, e publicada no Brasil pela Editora Globo (com o óbvio nome traduzido de O Demônio da Mão de Vidro) em 1990. Quem puder adquirir esta edição, que compare O Exterminador com O Demônio e tire as suas próprias conclusões...

De um jeito ou de outro, fica uma pergunta no ar: será que Dias de Um Futuro Esquecido foi inspirada em alguma obra anterior, como aconteceu com O Exterminador do Futuro? A resposta para este questionamento é... Sim! E o próprio John Byrne explicou essa situação no livro Modern Masters Volume Seven: John Byrne: “Quatro anos após a publicação de Dias, eu estava morando em Chicago, e assistia Doctor Who na PBS (rede televisiva pública dos Estados Unidos). E então, apareceu na tela o episódio Day of the Daleks. Uau, Day of the Daleks, eu vi esse na minha juventude quando morava em London, Ontário (no Canadá). Esse é dos bons! E eu o revi, e ele era idêntico a Dias de um Futuro Esquecido! E então, pensei: ‘Ooooh, mas que droga!’ [risos]”.

Resumindo tudo: Byrne admite que, ainda que de forma absolutamente inconsciente, ele se inspirou em uma aventura de Doctor Who para conceber Dias de Um Futuro Esquecido! E, para aqueles que nunca ouviram falar de Doctor Who, cabe aqui uma pequena explicação: considerada a mais longeva série de ficção cientifica da história da tevê mundial (é produzida e exibida pela rede inglesa BBC desde 1963, com uma interrupção entre 1989 e 2004), Doctor Who narra as aventuras de um cientista extraterrestre conhecido apenas como o Doutor, que a bordo da TARDIS (uma mistura de máquina do tempo e nave espacial) parte em busca de aventuras em vários locais do Tempo e do Espaço.

Escrito por Louis Marks, Day of the Daleks (O Dia dos Daleks) foi originalmente exibido pela BBC no começo de 1972 em quatro episódios semanais, e marca o início da nona temporada da série. Tudo começa com o diplomata Sir Reginald Styles convocando dezenas de colegas seus de diversos países para uma conferência objetivando a paz mundial. Durante os preparativos para a conferência, Sir Styles é atacado por um guerrilheiro vestindo roupas camufladas e portando armas futuristas. Antes de concretizar seu ataque, o guerrilheiro simplesmente desaparece no ar, e a peculiaridade deste incidente chama a atenção do Doutor (interpretado em sua terceira versão por John Pertwee). Investigando o caso, ele descobre que o atacante é proveniente de um grupo de resistência humana do século XXII, e que sua meta era sabotar a conferência, uma vez que a realização desta reunião redundaria em uma série de consequências que, no futuro, permitiriam que o planeta Terra fosse totalmente subjugado pelos Daleks, uma raça alienígena de ciborgues que almeja a dominação universal. Após uma série de escaramuças contra os Daleks tanto no século XX quanto no século XXII, o Doutor salva a conferência de paz patrocinada por Sir Styles, e consegue também evitar os eventos que no futuro acarretariam no controle de nosso mundo pelos ciborgues.

Nos dias de hoje Day of the Daleks é reconhecida como uma das melhores aventuras de Doctor Who de todos os tempos, e ela marcou a primeira aparição dos Daleks (considerados os maiores inimigos do Doutor) na fase em cores da série. Em 1974 o escritor Terrance Dicks (que trabalhava escrevendo e editando roteiros da série) adaptou a história para o formato de romance, e curiosamente em 1975 ele foi lançado aqui no Brasil pela Editora Global com o pitoresco nome de Doutor Who e a Mudança da História. Por fim, em 2011, Day of the Daleks foi lançada nos EUA e no Reino Unido em um DVD duplo, sendo que um deles trazia os episódios com vídeo, efeitos sonoros e efeitos especiais “remasterizados”, e o outro tem a aventura no seu formato original de exibição. Infelizmente, esta espetacular história ainda permanece inédita por aqui tanto nos nossos canais de televisão quanto em DVD.

Se Dias de um Futuro Esquecido foi assumidamente inspirada em um episódio de uma série sci-fi televisiva, o contrário também já aconteceu: em 2006 foi lançado o seriado Heroes, cujo principal mote era a transformação de indivíduos aparentemente normais em seres dotados de superpoderes. Logo no episódio de estreia (chamado Genesis), somos apresentados a Hiro Nakamura (interpretado por Masi Oka), um otaku japonês que possui o dom de viajar no Tempo e no Espaço. Como bom nerd, em Genesis Nakamura fala para o seu melhor amigo que o seu aprendizado sobre viagens no tempo foi obtido através da leitura de Dias de Um Futuro Esquecido! Mas citação a Dias não para por aí, já que no vigésimo episódio da série – cujo titulo é Five Years Gone – fazendo uso de seus poderes Nakamura viaja para um futuro onde o a cidade de Nova York está devastada e indivíduos superpoderosos são ferozmente caçados e encarcerados pelo governo americano. Ora, ora... Se essa trama não é parecida com Dias de Um Futuro Esquecido, o que será?

Pois é... Após tantos “boatos”, e tantas “inspirações”, acaba valendo aquilo que foi dito por Byrne em seu website: “Depois disso, eu aprendi uma importantíssima lição sobre ter cuidado com ideias para histórias que aparentemente surgem do nada, quase formadas!”. Ou, sendo mais preciso: no fim, todos aqueles que escrevem ou escreverão aventuras envolvendo “viagem no tempo” deverão sempre “pedir a benção” para H. G. Wells e Edward Page Mitchell, que no final do século XIX introduziram o conceito no gênero da Ficção Cientifica!

:: Revisitando um Clássico
Já falamos antes e vamos nos repetir: Dias de Futuro Esquecido de maneira quase instantânea adquiriu o status de “clássico”. Desde o seu lançamento original não foram poucas as capas de revistas em quadrinhos e artes que e homenageavam e recriavam a icônica capa de Uncanny X-Men #141 (que retratava Wolverine e Kate Pryde acossados contra uma parede, que tinha um cartaz com uma lista de mutantes mortos ou capturados). E, como também não foram poucas as vezes em que os conceitos mostrados em Dias foram revistos ou revisitados, iremos aqui relembrar algumas das histórias em quadrinhos que de alguma forma estão ligadas a esta saga.

Ora, com o tempo surgiram mais e mais “realidades alternativas” dentro do Universo Marvel, e a partir da iniciativa do editor Mark Gruenwald os fãs e a própria editora iniciaram um trabalho visando a sistematização e catalogação de todas as suas “terras paralelas”, e nesse processo foi definido que a Terra-616 seria aquela que abrigaria o Universo Marvel regular que os leitores encontrariam usualmente nas revistas mensais; já o futuro de Dias de um Futuro Esquecido seria apelidado de Terra-811. E justamente em meados de 1985 na revista X-Men #191 (no Brasil X-Men #14, Editora Abril, 1989) da Terra-811 surge Nimrod, um Sentinela de última geração que veio no encalço de Rachel (a telepata filha de Jean Grey e Scott Summers, lembram-se?). Após algumas batalhas com os X-Men no transcorrer dos anos ele se transfigurou no vilão Bastion, e se tornou o principal antagonista dos mutantes na saga Operação Tolerância Zero (Operation: Zero Tolerance), publicada nos EUA em todas as revistas mutantes em meados de 1997 e aqui no Brasil nos gibis Wolverine e X-Men entre maio e agosto de 1999 pela Editora Abril.

No ano de 1987, em uma de suas muitas aventuras, o supergrupo conhecido como Novos Mutantes se dispersou em vários lugares do Tempo e do Espaço, e no gibi New Mutants #48 (no Brasil Incrivel Hulk #97, Editora Abril, 1991) parte da equipe foi arremessada para o futuro da Terra-8720, que guardava notáveis semelhanças com a realidade de Dias de Um Futuro Esquecido. Após uma difícil batalha com os Sentinelas desta realidade, os jovens heróis conseguiram voltar para casa.

Apesar de simpática, a história dos Novos Mutantes na Terra-8720 não teve maiores consequências. As grandes e importantes repercussões estavam reservadas para a saga Dias do Futuro do Presente (Days of Future Present), publicada originalmente em 1990 nas revistas Fantastic Four Annual #23, X-Factor Annual #5, New Mutants Annual #6 e X-Men Annual #14 e aqui no nosso país em 1994 no gibi X-Men Anual #1, da Editora Abril. Concebida por Chris Claremont e pelo casal Louise e Walt Simonson e desenhada por vários artistas, esta aventura se inicia com a súbita aparição do Franklin Richards que supostamente havia morrido em Dias de um Futuro Esquecido no presente da Terra-616, e como se isso não fosse problema suficiente atrás dele surge Ahab, um poderoso ciborgue que trabalhava para os Sentinelas e que fará de tudo para capturá-lo. O surgimento desta ameaça faz com que o Quarteto Fantástico, X-Men, Novos Mutantes e X-Factor unam forças para debelar a ameaça, e após derrotar o vilão os heróis descobrem que o Franklin Richards que estava diante deles na verdade era apenas um eco psíquico do Franklin que de fato morreu em Dias.

Em 1993 o escritor e desenhista Alan Davis fez com que nas edições #66 e 67 da revista Excalibur os nossos heróis ficassem novamente frente a frente com Ahab, na saga Dias de um Futuro Incerto (Days of Futures Yet to Come), quando Rachel e o supergrupo mutante Excalibur rumam para o futuro da Terra-811 e enfrentam os Sentinelas e seus asseclas em uma batalha final, que terminou com a derrota dos vilões. Publicada no Brasil em 1996 no gibi Wolverine #52 (da Editora Abril), aparentemente esta aventura deveria fechar definitivamente todas as pontas relacionadas a Dias de Um Futuro Esquecido mas ainda assim a indústria americana de quadrinhos não resistiu a tentação de eventualmente continuar citando ou homenageando a saga.

Em 2005, o roteirista Frank Tieri e os artistas Bart Sears e Andy Smith brincaram com a possibilidade do programa secreto Arma X (que conferiu a Wolverine suas garras e ossos revestidos de adamantium) ser o responsável por um futuro apocalíptico similar ao retratado em Dias na minissérie em cinco partes Arma X – Dias de Um Futuro Presente (Weapon X – Days of Future Now), lançada em nosso país em 2006 entre as edições #19 e #23 da revista mensal Wolverine, da Panini.

Os estrelados Grant Morrison e Marc Silvestri lançaram em 2004 entre as edições #151 e 154 de New X-Men (no Brasil em 2005, nas edições #41 a 43 da revista X-Men, da Panini) a saga Ecos do Amanhã (Here Comes Tomorrow), onde, em uma aventura passada cento e cinquenta anos no futuro, um grupo de X-Men liderados por Wolverine lutam contra um enlouquecido Fera pela posse do Ovo da Fênix, um artefato que em tese retém todos os poderes quase divinos da falecida heroína. Recentemente republicada no Brasil em uma edição encadernada, Ecos do Amanhã foi clara e assumidamente inspirada em Dias de Um Futuro Esquecido, apesar de não ter relação direta com os fatos contidos nela.

Em 2013 comemorou-se cinquenta anos de publicação dos X-Men, e para marcar a data como sempre a Marvel resolveu botar na praça mais uma de suas típicas sagas, batizada com o proverbial nome de Batalha do Átomo (Battle of the Atom). Publicada nos EUA entre setembro e outubro de 2013 em dez partes, divididas entre duas edições especiais e nas revistas mensais dos mutantes (e programada para ser lançada aqui Brasil no segundo semestre, pela Panini, em formato ainda a ser definido) a saga seguirá a seguinte premissa básica: vindos do futuro, um grupo de mutantes chega ao nosso tempo com o objetivo de avisar os X-Men que algumas decisões tomadas pela superequipe simplesmente desencadearão nas próximas décadas o apocalipse da raça mutante! Sejamos francos: essa trama é ou não é parecida com Dias de Um Futuro Esquecido?

:: Em um cinema perto de você
Então... Depois de virar um clássico, depois de ser citada, homenageada e inspirar várias histórias em quadrinhos, só restava um caminho para Dias de Um Futuro Esquecido: ir para o cinema. E é justamente isso que está acontecendo agora em 2014, quando surge nas telonas o filme X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido! Escrito por Matthew Vaughn e Simon Kinberg e dirigido por Bryan Singer, o longa-metragem promete unificar toda a cronologia cinematográfica dos mutantes apresentada nos quatro filmes anteriores dos heróis. E sobre o que trata a aventura? Ora, em um futuro em que os mutantes estão à beira da extinção, os X-Men remanescentes enviam a mente de Wolverine (Hugh Jackman, como sempre) para o seu corpo nos anos setenta, e lá ele deverá avisar os jovens Charles Xavier (James MacAvoy) e Magneto (Michael Fassbender) do perigo que Bolívar Trask (Peter Dinklage, o Tyrion Lannister de Game of Thrones) e os seus recém-fabricados Sentinelas representam para o futuro da Terra.

O filme será bom? O filme será ruim? Teremos que esperar até o dia 22 de maio de 2014 (data de estreia prevista) para sabermos. O que sabemos com certeza é que, passados trinta e quatro anos, dois cabeças-duras que viviam brigando por causa da produção de um gibizinho ordinário da Marvel jamais imaginariam que a obra produzida em conjunto por eles teria um impacto tão grande nesse troço tão difuso, tão simples e ao mesmo tempo tão complexo que chamamos de “cultura popular”. Justamente por isso nós, do HQM, dedicamos este artigo a Chris Claremont e John Byrne... E, aproveitando este momento, pedimos também que continuem acessando o nosso site, já que nossa missão é cotidianamente levar para vocês as notícias mais recentes sobre Quadrinhos, Cinema, Games, Toys e Seriados Televisivos. Obrigado e até a próxima!

Cláudio Roberto Basilio, ou Brodie Bruce como também é conhecido, é pesquisador de histórias em quadrinhos e membro do comitê organizador da Santos Comic Con, feira de quadrinhos que será realizada na cidade de  Santos-SP no dia 22 de novembro de 2014. Para saber mais, acesse a página no Facebook: https://www.facebook.com/santoscomiccon

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Capa de X-Men: Battle of the Atom #01. Arte de Arthur Adams.
Cartaz de Dias de Um Futuro Esquecido.
 


 

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